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Porto Alegre, quinta-feira, 28 de dezembro de 2017.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Crítica

Notícia da edição impressa de 29/12/2017. Alterada em 28/12 às 19h19min

Aparências e revelações

George Clooney, ator consagrado nas bilheterias e de talento inegável, tem demonstrado a preocupação de deixar sua marca também como realizador. Até agora realizou como cineasta seis filmes, incluindo este Suburbicon: bem-vindos ao paraíso, cujo roteiro original, refeito em alguns pontos pelo realizador, foi escrito pelos irmãos Coen, numa época em que eles estavam iniciando a carreira. Clooney tem relações de amizade com os Coen, tendo atuado em quatro filmes dos irmãos. Ao recuperar um roteiro não filmado por eles mantem as características principais daqueles, mas realiza um filme pessoal, que se harmoniza com seus trabalhos anteriores. Como diretor, Clooney tem realizado filmes cujo profissionalismo é evidente, mesmo que nem todos possam ser vistos como acima da média produzida por Hollywood. Mas pelo menos um desses filmes - Boa noite, boa sorte - possui qualidades superiores e pode ser visto como um dos melhores entre todos os realizados sobre a importância do jornalismo e a resistência diante de tentativas de cerceamento. E para os que conhecem a obra dos Coen, não há dúvida alguma que Suburbicon também é uma espécie de homenagem aos irmãos ao tecer variações sobre situações e temas de seus filmes. Uma tendência básica, aquela que mescla drama e comédia, é mantida. O filme é um daqueles cuja estrutura e desenvolvimento não permitem a desatenção e mantém o espectador preso a uma trama assinalada por momentos surpreendentes, que contribuem para que tudo que estava oculto seja finalmente revelado.
Classificado por muitos como um filme antirracista, Suburbicon realmente ostenta esta característica, mas não é por ela limitado. Seu sentido se amplia ou se aprofunda na medida em que, ao reconstituir, de forma bastante habilidosa, os anos 1950, coloca na tela, além do preconceito, essa maneira deformada de ver o mundo, e quase sempre causadora de tumulto e violência, aquelas ações que revelam que o primitivismo pode estar disfarçado por rituais enganadores, mas não vencido. A ação transcorre num desses conjuntos residenciais que, através do isolamento, procuram proporcionar aos seus moradores tranquilidade e segurança. A atmosfera, nas cenas iniciais, se assemelha àquela de O show de Truman, de Peter Weir, mas, agora, não se trata de uma encenação e sim de um olhar para uma realidade que a artificialidade construída procura ocultar. O prólogo é propositadamente caricatural, para acentuar os principais sinais de uma vida regida por imposições geradas pelo culto às aparências. Mas este tom de farsa é uma maneira encontrada para expor, de forma clara, toda uma violência superficialmente contida. Os valores superficialmente cultuados são, aos poucos, substituídos por uma agressividade que a tudo destrói, menos uma tênue tentativa de harmonia, expressa na cena final.
A habilidade de Clooney como diretor é evidente na construção de cada personagem, algo permitido pela direção de atores e até com a cumplicidade de alguns deles, principalmente Oscar Isaac, que também já trabalhou com os Coen, em Balada de um homem comum. Numa participação pequena, mas marcante, o ator surge em cena para dominar a tela, como um tenor num palco operístico no momento de uma grande ária. É ele próprio quem cita aquele gênero ao se referir às coincidências que estão revelando algo que certamente não passaria despercebido de um esperto agente de seguro. Quando tudo se revela, em outro trecho operístico, a violência atinge seu ponto máximo, como se um coro irracional invadisse o palco, com o objetivo de a tudo destruir. É a imposição do irracional, o regresso de um primitivo que parecia controlado. E há, também, algumas surpresas típicas dos Coen, que Clooney sabe aproveitar, mesclando dramaticidade com recursos que se aproximam de uma comicidade sintonizada com um olhar crítico que não se afasta da narrativa em todo o tempo. E não há qualquer dúvida sobre a aproximação do filme com acontecimentos atuais, mesmo que a intenção do realizador tenha sido a de focalizar conflitos que têm sobrevivido às imposições de culturas e civilizações.
 
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