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Porto Alegre, quarta-feira, 15 de novembro de 2017.

Jornal do Comércio

Opinião

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Notícia da edição impressa de 16/11/2017. Alterada em 15/11 às 21h19min

Opinião econômica: Trumpalhadas

Delfim Netto foi ministro, embaixador e deputado federal

Delfim Netto foi ministro, embaixador e deputado federal


/VALTER CAMPANATO/abr/jc
O Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos EUA, tem dois mandatos legais: 1) manutenção da meta de 2% para a inflação, consistente com a maior estabilidade possível dos preços a longo prazo; 2) auxiliar a manter o maior nível de emprego possível (uma taxa de desemprego não explícita, mas em torno de 5%).
Desse ponto de vista, o trabalho da ilustre economista Janet Yellen, presidente do Fed de 2013 a 2017, foi primoroso. Termina 2017 com crescimento do PIB da ordem de 2,2%, taxa de inflação menor do que 2% e taxa de desemprego ligeiramente superior a 4%. A bem da verdade, é preciso dizer que ela não enfrentou nenhum estresse importante, mas teve o mérito de não se meter em nenhuma aventura.
Há mais de 80 anos existe uma tradição. O presidente do Fed é reconduzido pelo menos uma vez, mesmo quando o antecessor (que o nomeou) e o sucessor (que vai confirmá-lo ou não) são de partidos diferentes (democrata ou republicano). Negar a Yellen um segundo termo parece estranho, até porque, no terceiro trimestre, a economia americana cresceu (anualizada) 3% e a taxa de inflação foi de 2%.
O substituto escolhido por Trump é um conhecido advogado que se tornou bem-sucedido banqueiro. Jerome Powell, com 64 anos, é católico com rigorosa formação jesuítica e serve no Board do Fed há cinco anos, nomeado pelo antecessor Obama. Trabalhou no Tesouro americano na administração de George Bush (1989-1993) e vivenciou o colapso do gigante Bank of New England e a confusão do Salomon Brothers com os títulos do Tesouro.
Seus votos no Board normalmente acompanhavam os de Yellen. A direção do Fed, entretanto, depende ainda da nomeação para outras três vagas, inclusive o seu vice-presidente, porque, depois de Powell e de Jeremy Stein (2012), Obama não conseguiu aprovar no Senado nenhum outro membro para o Board do Fed.
De qualquer forma, a falta de respeito de Trump à tradição e sua insistência na expansão fiscal devem significar alguma coisa: uma possível redução, de fato, da famosa "independência" política do Fed. Nas últimas semanas temos assistido a vários movimentos que sugerem a antecipação de uma alta mais robusta da taxa de juros americana.
Primeiro, o rápido desmonte das posições dos operadores nas posições com o dólar, que levou à desvalorização das moedas dos emergentes (o dólar chegou a R$ 3,30). Em segundo lugar, a divergência entre a Câmara e o Senado americanos parece que atrasará a reforma fiscal de Trump para 2019, aumentando as incertezas que já se refletiram no preço das ações na bolsa de Nova Iorque. As "trumpalhadas" podem terminar comprometendo o saudável panorama econômico mundial...
Economista, ex-deputado federal e ex-ministro da Fazenda, do Planejamento e da Agricultura
 
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