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Porto Alegre, domingo, 26 de novembro de 2017.

Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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Comércio Exterior

Notícia da edição impressa de 27/11/2017. Alterada em 24/11 às 20h42min

Brasil perde espaço no comércio mundial

KJPARGETER/FREEPIK.COM/DIVULGAÇÃO/JC
Sem acordos internacionais de peso e sendo considerado um dos países mais fechados do mundo, o Brasil vem perdendo, ano a ano, espaço no comércio internacional. O País, que em 2011 chegou a ter uma participação de 1,4% nas exportações e importações globais, viu essa fatia cair para 1,1% no ano passado. Entre os maiores exportadores, chegou a ocupar a 22ª posição em 2013, mas caiu para o 26º posto no ano passado, segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Embora esteja encolhendo lá fora, o Brasil vive um momento em que exporta bem mais do que compra do exterior. De janeiro a outubro, o saldo foi positivo em US$ 58,5 bilhões - o maior superávit da série histórica. Só que o desempenho se deve, sobretudo, ao crescimento dos preços das commodities. Nos produtos de maior valor agregado, o País ainda sofre com a falta de competitividade.
"Comemorar a alta nas exportações é correto, mas o fato de o Brasil ser fechado, cobra um preço caro na qualidade das nossas exportações. Só exporta bem quem consegue importar sem tantas barreiras", diz a professora da Fundação Getulio Vargas (FGV) Lia Valls.
Especialistas lembram que o Brasil é corretamente retratado pela OMC como uma economia amplamente movida pelo mercado interno. "Temos um mercado consumidor grande, e é até natural que as empresas nacionais se voltem para ele", diz Lia.
Ao se considerar a participação das importações no PIB (indicador construído pelo Banco Mundial), de 12,1% no ano passado, o Brasil acaba figurando na lista dos países mais fechados do mundo. O percentual é menos de um terço que o do México, por exemplo.
"O baixo grau de integração ao comércio mundial desestimula tanto a inovação quanto a competitividade internacional das empresas", afirma Sandra Rios, do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes). "Isso reflete a política comercial brasileira, que privilegia o desenvolvimento de uma indústria integrada verticalmente e voltada para o mercado interno."
O resultado desse cenário é a má alocação dos recursos produtivos, a baixa incorporação de avanços técnicos e a reduzida inserção no comércio internacional de manufaturados. "Na saída da recessão econômica, o País continua dependente do mercado doméstico para a retomada do nível de atividade da indústria", diz Rios.
Com o mercado interno em baixa nos últimos anos, o que os analistas esperavam era que houvesse uma explosão no número de empresas brasileiras exportadoras em todos os níveis, mas isso não ocorreu. Mais de 300 empresas deixaram de exportar nas maiores faixas de valor, acima de US$ 5 milhões, entre 2013 - quando a recessão ainda não tinha começado - e outubro deste ano. Os dados são do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic).
O crescimento no número de exportadores ocorreu apenas na base, entre os que comercializaram até US$ 5 milhões no ano. Essas empresas de menor porte foram as que ajudaram a puxar o total de exportadores. Em 2013, 21,8 mil companhias venderam ao exterior, considerando todas as faixas. Neste ano, até outubro, o total chegou a 24,3 mil.
Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), publicada em 2016, ajuda a entender alguns dos problemas do exportador brasileiro para se manter no mercado internacional: custo de transporte e tarifas de portos e aeroportos.
"No passado, a gente reclamava dos países que colocavam barreiras, hoje os maiores entraves são internos", diz o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. Ele lembra que as exportações brasileiras também são muito concentradas nos países da América Latina. "O Brasil acaba dependendo em dobro das commodities, tanto para melhorar o saldo do País quanto para que seus vizinhos consigam comprar mais produtos brasileiros."

Temor é o mesmo dos anos 1990

Kalout destaca a geração de tecnologia

Kalout destaca a geração de tecnologia


/PALÁCIO DO PLANALTO/JC
O temor com fechamento de indústrias e perda de empregos por causa da concorrência com os importados é hoje o mesmo que havia em 1990, quando o então presidente Fernando Collor de Mello aboliu uma lista de produtos cuja importação era proibida, como carro e TV. A avaliação é do secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência, Hussein Kalout. Ele ressalta, porém, que, embora criticada à época, a abertura promoveu um salto no desenvolvimento no País.
A abertura tem muitos defensores, mas também muita resistência de setores da indústria e sindicatos. Como contornar isso?
Hussein Kalout - Em 1990, quando o presidente Fernando Collor efetuou a abertura econômica, as ponderações eram as mesmas: o setor produtivo vai quebrar, haverá desemprego, a indústria irá falir. De lá para cá, estamos entre as 10 primeiras economias do mundo, e o Brasil é um País muito mais desenvolvido do que antes. É um País gerador de tecnologia. Demos um salto qualificado no nosso desenvolvimento.
Como convencer os mais frágeis desses benefícios?
Kalout - É legítima a preocupação do setor privado, dos trabalhadores. Mas, se o Brasil não pensar de forma mais objetiva em como sair dessa discussão, ficaremos à margem do desenvolvimento mundial, das cadeias produtivas globais. Uma abertura econômica tem de seguir algumas balizas. E ocorrer de forma paulatina, ordenada, pois há setores aptos a isso e outros que devem se preparar. O objetivo do debate não é discutir se uma abertura deve ser feita hoje, amanhã ou depois, e sim como deve ser feita. E qual deve ser o calendário.
Então é diferente do que fez Collor, que deu uma pancada nas fábricas de "carroças".
Kalout - Naquela época, talvez fosse necessário se fazer daquela forma. Talvez agora se possa fazer de outra, setorial, que aufere proteção a setores vitais para a segurança nacional.

Governo admite que abertura está atrasada

Integrantes do governo brasileiro reconhecem que o País está atrasado em abrir o seu mercado e, com isso, desperdiça oportunidades de crescimento econômico. "Depois da abertura do mercado nos anos 1990, as tarifas de importação caíram muito pouco", observou o secretário de Acompanhamento Econômico, Mansueto Almeida.
Ele considera que a maior integração comercial é essencial para impulsionar o crescimento. Citou como exemplo a Embraer, que compete no mercado mundial, porque importa o que há de melhor para seus aviões. Uma economia forte, disse, exporta muito, mas também importa muito.
Essa, porém, não é a realidade de toda a indústria. Setores mais afetados pela competição de importados apontam a elevada carga tributária, a infraestrutura ruim e a falta de crédito para justificar sua fragilidade.
Embora tenha caído duas posições no ranking global do relatório Doing Business, do Banco Mundial, o Brasil avançou 10 posições em facilidade de comércio. Isso é resultado dos poucos avanços na implementação do Portal Único na época em que o relatório foi feito, segundo o secretário de Comércio Exterior, Abrão Árabe Neto. O portal reúne as duas dezenas de órgãos públicos que atuam no comércio exterior.
O atual governo também busca ampliar os acordos comerciais do Brasil. O maior deles é o do Mercosul com a União Europeia. Estão na mira o Canadá, o Efta (Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein), a Coreia do Sul e os países da Asean (Tailândia, Filipinas, Malásia, Cingapura, Indonésia, Brunei, Vietnã, Mianmar e Laos).

Fabricação de aviões tem incentivos a componentes importados

Sucesso da Embraer no exterior se 
deve às condições internas, que a 
ajudam a competir

Sucesso da Embraer no exterior se deve às condições internas, que a ajudam a competir


/embraer/DIVULGAÇÃO/JC
A Embraer é um exemplo positivo recorrente quando especialistas tentam explicar o quanto a indústria brasileira ainda precisa evoluir em sua inserção nas cadeias de comércio global. Para Sandra Rios, do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), o sucesso da empresa no mercado internacional é impulsionado por ela contar com condições internas que a ajudam a competir internacionalmente. "A Embraer se desenvolveu mirando o mercado internacional, concentrando-se no conhecimento e desenho de aeronaves."
A fabricante participa de regimes aduaneiros, como o drawback e o Recof. Esses sistemas servem para suspender ou eliminar tributos sobre insumos importados que são utilizados na fabricação dos aviões que a empresa vai exportar depois.
Dados mais recentes, de 2011, mostram que entre os fornecedoras de peças e componentes para o cargueiro KC-390 há uma forte presença de empresas estrangeiras: elas fabricaram do sistema de radar ao ar-condicionado da aeronave.
De acordo com a Embraer, a utilização expressiva de componentes importados na fabricação de suas aeronaves é algo comum no setor. "Poucos fornecedores conseguem prover componentes e peças com as especificações necessárias (para a fabricação dos aviões)." Em paralelo, a empresa diz manter iniciativas para desenvolver a cadeia de produtores nacionais.

Vendas externas do setor agropecuário crescem e ajudam a minimizar perdas

O agronegócio é um dos setores responsáveis por não deixar que os números brasileiros sejam ainda mais baixos quando o assunto é comércio exterior. O Indicador Mensal de Comércio Exterior (Icomex), do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV), que traz os principais dados da balança comercial brasileira, mostram aumento de 31,7% no volume exportado no País em outubro de 2017, em comparação a outubro do ano passado. Já o volume das importações no mesmo período cresceu 26%.
Os dados divulgados pela FGV revelam crescimento de 151% no volume exportado pelo setor agropecuário. O resultado é recorde e supera o de setembro, que também já havia sido recorde; e, consequentemente, todas as variações registradas nos meses anteriores entre 2016 e 2017.
Já a indústria de transformação apresentou a segunda maior variação, com crescimento de 25,7%, superando, pela primeira vez no ano, o crescimento das exportações da indústria extrativa, que fechou em outubro com crescimento de 21,4% sobre o mesmo mês do ano passado.
Os destaques da indústria de transformação foram as vendas de automóveis para os mercados da América do Sul e para novos mercados, como a Arábia Saudita, justificando, segundo a FGV, "o bom desempenho do setor de bens duráveis da indústria de transformação".
Os dados indicam que o preço das exportações aumentou em relação a setembro e cresceu 4,7% na comparação entre os meses de outubro de 2016 e 2017. "As principais contribuições para esse aumento foram do minério de ferro, com crescimento de 51%, e petróleo e derivados (17,3%).
As contribuições foram importantes para o saldo positivo na balança, uma vez que o preço de alguns dos principais produtos agrícolas caiu, como foi o caso do complexo da soja, cujo recuou chegou a 10,3%.
A nota da FGV indica ainda que, no caso das importações, a liderança no volume importado coube aos bens semiduráveis, que chegou a crescer 34%, seguido dos bens duráveis, com expansão de 26%. A FGV também observou desaceleração no ritmo de crescimento das importações de capital em relação ao resultado da comparação mensal de setembro, passando dos 71,5% da comparação setembro 2016/setembro 2017 para 25,6% entre outubro 2016/2017.
"Observa-se, porém, que é o terceiro resultado seguido de variação positiva, o que sinaliza uma possível recuperação da taxa de investimento da economia", ressaltou a nota da FGV.

Exportações da Whirlpool, dona de Brastemp e Consul, caem 40% em cinco anos

A Whirlpool, dona das marcas Consul e Brastemp, e também fabricante de compressores, é uma das 50 maiores exportadoras de manufaturados do País. A empresa viu suas vendas externas de compressores para refrigeração caírem 40% nos últimos cinco anos. A falta de competitividade dos equipamentos produzidos pelo grupo no Brasil fez a maior fabricante e exportadora de compressores do País perder o mercado norte-americano nesse período.
"Em 2013, abrimos uma fábrica no México para atender aos Estados Unidos, que eram abastecidos a partir do Brasil", conta o vice-presidente de Relações Institucionais da companhia, Armando Ennes do Valle Júnior. Hoje, a filial brasileira vende o produto a vários mercados, mas não mais para os EUA.
A fabricante não é um caso isolado. Apesar de o total de empresas brasileiras exportando ter aumentando na crise, o crescimento se dá na base, entre as que estão nas menores faixas de valor. Entre os maiores grupos exportadores, mais de 300 empresas deixaram de atuar na venda para o exterior, entre 2013 e outubro deste ano, segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic).
Valle diz que falta competitividade nas exportações. Ele lembra que, na China, por exemplo, a liberação de uma carga para exportação é feita em seis horas. No Brasil, demora de 24 a 48 horas. "É muito tempo. Tem órgão nos portos que só trabalha em horário comercial."
Ele aponta o excesso de burocracia, a falta de infraestrutura nos portos, a não compensação de impostos e contribuições incidentes na produção, como Programa de Integração Social (PIS) e Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), além de pressões inflacionárias e do câmbio, como fatores que tiraram a competitividade do produto brasileiro em relação aos concorrentes de fora. "Ninguém exporta imposto", diz o executivo, fazendo referência a outros países.
Além disso, ele lembra que todo exportador de produto industrializado depende de importação para exportar. Ele destaca como obstáculo a complexidade do processo de importação, em que são necessários seis ou sete documentos. "E, para exportar, é exigido outro tanto de documentos", afirma.
"O Brasil ainda não olha para exportação como uma alternativa importante, que seria fundamental nesse momento de crise", afirma o executivo. Ele defende um caminho mais rápido para as vendas externas de grandes companhias exportadoras. "Estamos entre os 50 maiores exportadores do Brasil, e não podemos ser tratados como uma empresa que está exportando pela primeira vez."
Apesar de mais de 4,7 mil empresas terem exportado pela primeira vez no ano passado, segundo o Mdic, as dificuldades de vender para o exterior também afetam as empresas de menor porte. "Há muita dificuldade para lidar com a burocracia. A exportação é um investimento que leva tempo para dar resultado", diz Camilla França, da BFX Brazil, consultoria para exportadores de primeira viagem.
O fabricante de peças para carros Arthur Solto, por exemplo, teve problemas ao tentar exportar para a América Central. O empresário teria de readequar a produção ao padrão dos países da região e desistiu. Preferiu enfrentar a concorrência maior e, talvez, voltar a exportar à Argentina em 2018.
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