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Porto Alegre, quinta-feira, 02 de novembro de 2017.

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Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 03/11/2017. Alterada em 01/11 às 18h39min

Um cineasta

Louis Garrel interpreta Jean-Luc Godard em O formidável

Louis Garrel interpreta Jean-Luc Godard em O formidável


IMOVISION/DIVULGAÇÃO/JC
Quando realizou, em 1963, O desprezo, aquele que para muitos é o maior de seus filmes, Jean-Luc Godard, sabia que não estava sendo pioneiro ao colocar como um dos personagens do filme e interpretado por ele próprio o grande Fritz Lang. Antes dele, em 1950, Billy Wilder, em O crepúsculo dos deuses, havia utilizado Cecil B. De Mille num papel pequeno, mas importante, que aparecia durante as filmagens de Sansão e Dalila, filme tido em alta conta por alguns companheiros de crítica de Godard nos Cahiers du Cinéma. Em outro momento expressivo de sua carreira, Pierrot le fou, realizado em 1965, Godard iria mais uma vez colocar em cena outro cineasta, desta vez Samuel Fuller, que, como participante de uma festa e respondendo a uma pergunta de Jean Paul Bolmondo, definia o cinema como "um campo de batalha". Certamente, Godard não poderia prever que com 87 anos iria se transformar em protagonista de um filme, interpretado por um ator - no caso Louis Garrel, em atuação notável. É o que acontece em O formidável, realizado por Michel Hazanavicius, que em 2011 alcançou repercussão com O artista, que de certa forma também tinha o cinema como tema, pois recriava a técnica narrativa utilizada numa época em que a nossa arte não possuía o recurso do som. Hazanavicius, agora, é outra vez pretensioso ao focalizar a personalidade de um realizador que, embora possa ter, na tela e fora dela, filmes e atitudes discutíveis, ocupa um lugar entre os que inovaram o cinema a partir dos anos 1960.
Hazanavicius centraliza sua narrativa no relacionamento de Godard com a atriz Anne Wiazemsky, falecida no mês passado, e que havia iniciado a carreira na obra-prima de Robert Bresson, A grande testemunha. Anne era neta de François Mauriac, escritor católico, assim como o cineasta com quem ela havia trabalhado antes. É a primeira contradição que o filme registra, para acentuar que a realidade e os impulsos humanos são mais complexos do que imaginam os adeptos das cartilhas e os fascinados pelas superficialidades. É o próprio caso de Godard, que havia conhecido a atriz quando realizou A chinesa, em 1967, onde de certa forma profetizou o que iria acontecer em maio de 1968. O filme, malvisto pela esquerda e pelos próprios dirigentes chineses, como Hazanavicius, aliás, acentua, é outro ponto de discórdia que o filme registra. Outro, bem claro, é o da estadia na casa de praia de um jornalista defensor de Charles De Gaulle, onde Godard descansa depois de ter participado da ação que interrompeu o Festival de Cannes. Durante as passeatas de maio, o protagonista várias vezes é abordado por manifestantes que revelam seu entusiasmo pelos filmes que ele havia realizado, agora renegados em nome de uma revolução que, segundo o diretor de Acossado, não deveria permanecer restrita às dimensões de uma tela.
O diretor de O formidável parece pensar diferente, ao dar ênfase ao comportamento de seu personagem, como a dizer que uma sociedade guiada pela racionalidade exige, antes de mais nada, seres humanos racionais, o que torna tudo mais difícil. Em vários momentos do filme as contradições de Godard são registradas, como no episódio italiano. Em outros, Hazanavicius se mostra bastante inspirado. A cena da viagem de carro é reveladora e habilmente realizada. Várias opiniões se manifestam e nela o protagonista chama de iletrado o espectador que certamente representa a maioria que frequenta os cinemas. Este ataque de elitismo vindo de um cineasta que pretende ser um revolucionário define com clareza a questão. E há os episódios dos óculos, maneira encontrada para colocar na tela a desorientação do personagem diante do que está acontecendo. O tom humorístico de certas passagens apenas reconstitui momentos do cineasta, que nunca recusou tal recurso e até realizou uma comédia brilhante, Uma mulher é uma mulher. E, ao registrar a dor de Anne, Hazanavicius se esmera, como na utilização de No crepúsculo, uma das Quatro últimas canções, de Richard Strauss, utilizada para acentuar a dramaticidade do momento em que ela sente a chegada do fim de um relacionamento e o epílogo de uma encenação que lentamente vai perdendo sua luz.
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