Porto Alegre, sexta-feira, 20 de outubro de 2017.

Jornal do Comércio

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DOENÇAS DA VIDA MODERNA

Notícia da edição impressa de 18/10/2017. Alterada em 20/10 às 19h08min

Crescem os casos de suicídio no Brasil

Nogueira alerta que País ocupa oitava posição no mundo

Nogueira alerta que País ocupa oitava posição no mundo


HMD/DIVULGAÇÃO/JC
Uma pesquisa feita pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs) revela que 36% dos adolescentes da Zona Norte de Porto Alegre disseram que estão sem esperança. Nas escolas do Centro da cidade, 8,5% dos jovens responderam que têm vontade de se matar. Portanto, não é uma surpresa o fato de que Porto Alegre, junto com Curitiba, apresenta os maiores índices de suicídio entre adolescentes nas capitais brasileiras. Essa já é a principal causa de mortes entre meninas na faixa dos 12 a 19 anos no Rio Grande do Sul. Entre os meninos é a terceira.
O povo brasileiro, que muitos consideram feliz e otimista, é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) o campeão mundial de ansiedade. Os dados foram divulgados há dois meses. A organização também coloca o Brasil em quinto lugar no ranking da depressão. Segundo a entidade, 6% da população sofre deste mal. Em termos de América Latina o País está no topo da lista, superando Argentina, Chile e o Uruguai.
Neste grupo o Brasil também aparece em primeiro lugar no uso de drogas e álcool. "Nunca houve isso. Na última década o Brasil aumentou de 9% para 19% o número de alcoolistas", relata Ricardo Nogueira, psiquiatra que coordena o Centro de Promoção da Vida e Prevenção ao Suicídio do Sistema Mãe de Deus. Ele explica que, como resultado de todos estes números acima, o País ocupa atualmente a oitava posição em suicídios no mundo. "Tínhamos 9 mil suicídios por ano e a partir de agora temos 12 mil. Mil suicídios por mês, 32,3 por dia. São três boeings lotados que caíram. O Rio Grande do Sul representa 10% deste total com 1.200 suicídios anuais", detalha o psiquiatra.
Entre as principais causas que levam as pessoas a tirarem sua vida estão o uso e abuso de álcool e drogas, depressão e perda de emprego recente. "No último ano, as estatísticas mostram que 14 milhões de pessoas perderam o emprego. Deste total, cerca de 12 milhões estão deprimidos", diz Nogueira.
Atualmente, aumentou o número de suicídios entre jovens e nas crianças. "Isso não existia antes e agora vemos crianças de oito a 11 anos tirando a própria vida. Nos últimos 30 anos este índice aumentou em 60% no Brasil. Nos Estados Unidos cresceram 50%", explica o coordenador. Entre os adolescentes 44,24% das tentativas de suicídio são por intoxicações medicamentosas, conforme os dados do Centro de Informações Toxicológicas do Rio Grande do Sul (CIT).
"E o que está sendo feito a respeito disso? Diminuíram os leitos psiquiátricos. Não se tem prioridade. Se uma criança hoje tenta se matar, qualquer posto de saúde ou centro de atenção psicossocial que vá procurar ajuda só vai conseguir uma consulta para daqui dois ou três meses. Neste período já tentará tirar a vida pelo menos mais duas vezes", alerta Nogueira.

O zen como um caminho de autoconhecimento

Monja Coen usa a experiência própria para ensinar
Monja Coen usa a experiência própria para ensinar
MARCELO G. RIBEIRO/JC
Os números impressionam. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), atualmente mais de 320 milhões de pessoas sofrem de depressão. Até 2020 será a enfermidade mais incapacitante do mundo. A Monja Coen, considerada uma das líderes atuais do Budismo no Brasil, acredita que os princípios básicos deixados como herança por Buda podem ser um caminho para quem sofre deste mal. No livro lançado em setembro em Porto Alegre - O sofrimento é opcional - como o zen budismo pode ajudar a lidar com a depressão - ela detalha como enfrentou esta doença que a levou a tentar o suicídio.
Um dos seus primeiros alertas é que a depressão é uma doença e deve ser tratada como tal. "Para isso, existem os médicos, psicólogos, terapeutas. A prática do zen ajuda a perceber onde estamos. Ao nos conhecermos fica mais fácil saber como podemos sobreviver. A quem devemos procurar para pedir ajuda", comenta. Para ela, ao contrário do que muitos pensam, estar doente não é um carma. O que pode emaranhar o ser humano vem depois. São as escolhas a partir disso.
Para expandir a percepção ela ensina algo simples: prestar atenção à respiração, ao ar que entra e sai das narinas. Perceber de onde este ar vem. Observar a mente, os pensamentos. Ouvir os sons do entorno. Em resumo: estar atento a si ao mesmo tempo em que se sente parte de um todo. Uma prática como essa, ao alcance de todos, pode trazer bons resultados. "Ao me conhecer fico livre dos incômodos. Tenho mais liberdade. Se não me conheço, sou puxada pelos meus sentimentos e emoções e vamos afundando. Uns conseguem dar um impulso e sair. Outros precisam de uma boia", diz a líder espiritual, que acredita que os ensinamentos de Buda podem fazer parte do processo de resgate.

Ansiedade em excesso faz mal à saúde

Pacheco destaca que a ansiedade pode desencadear ataque de pânico
Pacheco destaca que a ansiedade pode desencadear ataque de pânico
JENIFFER CAETANO/COMUNICAÇÃO HSL/DIVULGAÇÃO/JC
A vida moderna trouxe muitas facilidades e infinitas possibilidade de viver e experimentar novas emoções. Mas diante de tantos estímulos, prazos e cobranças para se alcançar o sucesso e atender as demandas do dia a dia, estamos ficando ansiosos demais e até doentes. Ansiedade diante de uma entrevista de emprego ou de uma viagem é normal. O que se deve é ficar atento quando essa sensação vira uma companhia diária. Viver em constante tensão é um perigo para a mente e o corpo. O chefe do serviço de psiquiatria do Hospital São Lucas e professor de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), Marco Antônio Pacheco, explica que ansiedade e depressão são diferentes. Segundo ele, ansiosa é aquela pessoa que tem medo do futuro. Já o deprimido é aquele que acha que tudo está ruim na vida dele e não vê possibilidades de melhorar.
Quando a pessoa fica tensa durante grande parte do dia e apreensiva com os acontecimentos futuros, a ansiedade se generaliza e pode desencadear um ataque de pânico. "A pessoa pode estar em qualquer lugar e, de repente, entrar em pânico. O coração dispara, falta o ar e ela não sabe o que está acontecendo, pensa que está tendo um enfarto e que vai morrer", explica o psiquiatra. Geralmente, as crises duram entre cinco e 30 minutos. O problema é que quem teve uma vez corre o risco de ter novamente, principalmente se não buscar ajuda especializada e não mudar os hábitos de vida.
Pacheco conta que após uma crise de pânico, alguns pacientes desenvolvem a agorafobia, que é o medo de ter novamente um ataque. Elas passam a evitar os locais em que tiveram a crise, como ônibus ou elevador, por exemplo. Em casos mais graves, evitam até sair de casa.
Além do estresse, o estímulo das luzes dos aparelhos eletrônicos também contribuem para a ansiedade. Com mais luz, dormimos menos. Isso sem falar do abuso da cafeína na dieta. "A ansiedade causa reações químicas no organismo. O corpo acha que estamos prontos para lutar, como nos tempos das cavernas. Quando estamos tensos, os músculos se contraem causando lesões na coluna e dores de cabeça", observa o médico.
Embora seja uma doença ligada à vida moderna e ao estresse, ainda há preconceito na hora de buscar ajuda de um psiquiatra. Estudos mostram que, em média, a pessoa passa por 14 médicos antes de ter o diagnóstico correto. "Existe tratamento com remédios e psicoterapia", diz o médico, lembrando que atividade física, meditação e ioga são grandes aliados para se ter uma mente e corpo mais saudáveis. Ele alerta ainda para o cuidado especial com crianças e adolescentes que têm diversas tarefas na semana e estão cada vez mais ligados aos jogos e estímulos visuais.
 
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