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Porto Alegre, quinta-feira, 14 de setembro de 2017. Atualizado às 21h18.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 15/09/2017. Alterada em 14/09 às 17h18min

O passado

A reconstituição do vivido, a busca por uma encenação que recoloque em seus lugares pessoas e acontecimentos, e a tentativa de um recomeço são, todas elas, tentativas que podem se transformar em relatos reveladores. No terreno da ficção, voltar a um tempo ultrapassado tem produzido obras que ficarão para sempre entre os tesouros produzidos pela civilização. No cinema, provavelmente, são duas as obras maiores que abordaram o tema: Vertigo, de Alfred Hitchcock, e O ano passado em Marienbad, de Alain Resnais. O número de filmes voltados ao tema é grande, mas esses dois títulos são, ao mesmo tempo, pioneiros e emblemáticos. O de Hitchcock tem aparecido em primeiro lugar na lista dos maiores de toda a história do cinema. Listas assim são sempre discutíveis, mas Um corpo que cai, título com que o filme foi exibido no Brasil, é obra que o tempo tem valorizado e merece o destaque obtido nos últimos anos. Trata-se de uma obra-prima, inovadora em vários sentidos. Na metade da narrativa há uma cena na qual o realizador revela a verdade de tudo, fazendo com que o espectador se distancie da tentativa do protagonista. Ao mesmo tempo, isso mostra que a mulher vindo do passado também está empenhada em reconstituir uma vida. Além disso, em Vertigo, o criminoso não é punido, como se o cineasta estivesse dizendo ao público que são mais importantes certas constatações do que o desfecho previsível das narrativas do gênero policial. Quando lançado em Havana, no final dos anos 1950, Guillermo Cabrera Infante, escritor que morreria no exílio, em Londres, em 2005, afirmou ser Vertigo o marco inicial do cinema moderno. Foi uma profecia que deve ser lembrada a fim de que seja ressaltado que nem sempre o pioneirismo da crítica tem origem entre europeus e americanos.
Três anos depois de Vertigo, Resnais realizaria outro marco, que não foi apenas uma variação em torno de seu primeiro longa-metragem, Hiroshima, meu amor, porque, na verdade, o filme relatava outra tentativa de trazer do passado a figura da mulher perdida. Uma tentativa de viver novamente algo perdido no tempo. O filme de Resnais teve grande repercussão no mundo intelectual. O de Hitchcock não ganhou festivais, nem recebeu estatuetas, mas ambos são, hoje, capítulos na história de nossa arte, como a confirmar uma fala do protagonista em A vida de Galileu, de Brecht: "A verdade é filha do tempo". Se Hitchcock foi inovador na forma como utilizou os recursos narrativos do cinema, Resnais exerceu seu papel revolucionário ao criar novos recursos para a sua arte, mas partindo de forma lúcida do que já estava concretizado. O grande passo só pode ser dado se o impulso vem de um ponto estabelecido. Essas duas obras-primas, duas formas de abordar o mesmo tema, provam, de forma definitiva, tal afirmação.
Bennoît Jacquot, o realizador de Até nunca mais, é mais um a abordar o tema da tentativa de reconstituir o passado. O cineasta tem capítulos interessantes em sua filmografia, principalmente uma versão da Tosca, de Puccini, na qual, além de encenar a ópera, paralelamente mostrava um documentário sobre os bastidores do espetáculo e mais um sobre a região onde transcorre a peça de Sardou, origem do drama musical então filmado. Ele também realizou um filme sobre Sade e uma versão de O diário de uma camareira, de Mirbeau, romance antes filmado por Buñuel. Esperava-se algo bem melhor do que agora visto. Baseado num romance de Don DeLillo, o filme, que é produzido por Paulo Branco e realizado em Portugal, é marcado pelo artificialismo dos diálogos e por situações que se repetem e em nada contribuem para a narrativa. O objetivo parece ter sido o de mostrar um romance sendo aos poucos enfraquecido pelo cotidiano, até o ponto em que o homem se transforma num fantasma. O acidente provocado é, assim, um rompimento com um cotidiano massacrante, depois que o cinema (a arte do marido) e a performance (a atividade da mulher) perdem a importância. Dos filmes, quase nada sabemos, e um movimento de mão nada nos diz. O novo filme de Jacquot é um daqueles que apenas servem para lembrar que certos modelos não deveriam ser tocados pela falta de imaginação.
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