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Porto Alegre, quarta-feira, 30 de agosto de 2017. Atualizado às 22h18.

Jornal do Comércio

Panorama

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Cinema

Notícia da edição impressa de 31/08/2017. Alterada em 30/08 às 16h11min

Viver é melhor que sonhar: Como nossos pais estreia em salas de cinema de todo o País

Atrizes Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra em Como nossos pais

Atrizes Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra em Como nossos pais


IMOVISION/DIVULGAÇÃO/JC
Caroline da Silva
Mais do que a história de uma mulher (ou duas mulheres) direcionada a todas as outras que possam assistir ao filme, Como nossos pais é um retrato contemporâneo da sociedade brasileira. "Laís Bodansky faz cinema humanista, não somente feminista", diz a atriz Maria Ribeiro, protagonista da produção, sobre a diretora e corroteirista do longa consagradíssimo no 45º Festival de Cinema de Gramado.
Em função da qualidade dos realizadores, do elenco, dos integrantes da equipe técnica e pela anterior seleção à Mostra Panorama Especial no 67ª Festival de Berlim, em fevereiro deste ano, não eram poucas as expectativas para a estreia nacional do título em Gramado. Mas o resultado ultrapassou o esperado e virou tônica temática para todas as conversas que se seguiram no evento. A repórter não ouviu, na cidade serrana, um único defeito sobre a produção ou alguma ressalva técnica sobre a constituição dela enquanto bem cultural. Ou seja, além de ter uma potente mensagem, também se mostrou um produto de extrema qualidade.
Por tudo isso, algo praticamente inédito acontece hoje com Como nossos pais. A entrada em circuito comercial nas salas de cinema de todo o País ocorre apenas quatro dias após a equipe ter saído de Gramado com nada menos que seis Kikitos na bagagem: melhor filme, direção (Laís Bodansky), montagem (Rodrigo Menecucci), atriz (Maria Ribeiro), ator (Paulinho Vilhena) e atriz coadjuvante (Clarisse Abujamra). Premiado em conjunto, trata-se de uma vitória incontestável, destacando o todo de uma produção que é urgente na cinematografia brasileira atual.
O filme aborda os múltiplos papéis exigidos da mulher na forma em que nossa sociedade está configurada nos dias de hoje: filha, esposa, mãe, amante, profissional exitosa, engajada, moderna, onipresente. Os seus pares permitem, aceitam, compreendem falhas e/ou eventuais vontades próprias?
A protagonista Rosa (vivida por Maria Ribeiro) se dá conta de tudo isso ao estar sempre à sombra do marido ecologista Dado (interpretado por Paulinho Vilhena), não somente no aspecto de trabalho, mas também merecendo menos carinho e atenção das filhas e da própria mãe (personagem de Clarisse Abujamra). Além da crise conjugal, ela se depara com a abrupta tomada de conhecimento que seu pai Homero (também ele cheio de problemas, encarnado pelo cômico Jorge Mautner) somente a criou, não é seu progenitor biológico - mas em nenhum momento ele é comunicado disso.
Neste ponto, Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi (casal que à época estava em separação) constroem no roteiro uma formosa crítica à política de nosso País, e fazem resgate do contexto intelectual que formou caminhos para chegarmos à atualidade. A participação especial de Herson Capri (como o pai biológico) é muito significativa.
A diretora (de O bicho de sete cabeças, 2000, protagonizado por Rodrigo Santoro) afirma que Como nossos pais tem uma segunda temática (não menor): a relação das próprias mulheres com elas mesmas, em situações diárias problemáticas: mães e filhas, duas irmãs com idades diferentes, filha com a madrasta, competição de perfis dos ambientes de trabalho, ou mesmo com outras mães na reunião da escola das meninas.
O filme tem ainda um outro ponto muito emotivo que contrapõe as figuras femininas, mas não seria honesto com o futuro espectador detalhá-lo. É neste momento que a referência do título do longa à música de Belchior eternizada na voz de Elis Regina se faz presente, dialogando com a letra da canção. Cuidado, há perigos na esquina, porém há que se estar encantado com novas paixões, invenções. Doem as feridas do coração, mas "viver é melhor que sonhar".
No entanto, ao receber seu Kikito, Laís disse que o cinema é uma fábrica de sonhos, de projeções de desejos. Talvez a sua filmografia específica confronte a sociedade brasileira, e aí more seu sentido, sua função. Mas a diretora conclui, absolutamente correta, que "esta indústria é concreta, gera economia, é significativa para o PIB brasileiro, maior até que o da farmacêutica ou têxtil, e não pode parar", aludindo ao fato de que a Lei do Audiovisual não deve ser descontinuada.
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