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Porto Alegre, quinta-feira, 03 de agosto de 2017. Atualizado às 22h40.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 04/08/2017. Alterada em 03/08 às 16h58min

Humanismo e dignidade

Na primeira vez em que a retirada de Dunquerque foi mencionada no cinema, a Segunda Guerra Mundial estava em andamento e o destino da civilização ainda era incerto. No ano de 1942, William Wyler, que mais tarde seria um dos cineastas a integrar as forças armadas americanas, sendo um dos Cinco que voltaram, retratados no livro de Mark Harris, reconstituía parcialmente o episódio desenrolado dois anos antes no filme Mrs. Miniver, exibido no Brasil com o título de A rosa da esperança. Naquele trabalho, premiado com o Oscar, o personagem de Walter Pidgeon antecipava a figura agora interpretada por Mark Rylance, vivendo um dos cidadãos britânicos a dirigir um barco particular para ajudar a salvar os militares encurralados na cidade francesa pelo exército alemão.
A segunda vez foi em 1958, num filme intitulado Dunkirk, o mesmo utilizado agora por Christopher Nolan e que está mantido nas cópias em exibição no Brasil. Esta outra produção foi dirigida por Leslie Norman, um especialista em filmes de ação. Mais recentemente, em 2007, Joe Wright, em Desejo e reparação, causou repercussão com seu plano-sequência de vários minutos no qual a dramaticidade do episódio era sintetizada em imagens impactantes e bastante realistas. Nolan, o realizador do atual Dunkirk, é o mesmo da excelente trilogia sobre O cavaleiro das trevas, um cineasta que até então vinha se destacando no campo da fantasia e que agora, reconstituindo um acontecimento histórico, altera o cenário de atuação e se coloca, entre os melhores da atualidade. Seu novo filme inova o drama de guerra, além de se constituir em espetáculo cinematográfico vigoroso e emocionante, que recusa o artificialismo com que os efeitos especiais são utilizados por realizadores menores e ainda é original por compor a narrativa em três tempos diferentes, que se encontram nas comoventes cenas finais.
A retirada, em termos militares, nunca será uma vitória. Mas no caso de Dunquerque foi possível ouvir os clarins que anunciaram o que aconteceria cinco anos mais tarde. Nolan, no entanto, escapa de forma brilhante das simplificações e da exaltação superficial. Ele soube ver no episódio algo mais profundo. Contemplou o gesto humano que está na raiz de toda a resistência diante da barbárie. O espectador certamente perceberá que o filme praticamente não mostra soldados alemães. O que interessa, aqui, é manter incólume a criatura humana de qualquer nacionalidade ameaçada pela maior das agressividades. O próprio cineasta tem dito que nas águas que o filme focaliza estão seres humanos semelhantes aos refugiados que hoje morrem na travessia. E como não ver, na opção digna e corajosa do almirante vivido por Kenneth Branagh, uma referência crítica à crise atualmente vivida pela Europa, outra vez ameaçada por manifestações nacionalistas, muitas delas marcadas pela intolerância e até pelo racismo. Os episódios de Dunquerque servem ao cineasta não apenas para a realização de um filme nobre e imponente, grandioso e comovedor, inclusive por reconstituir os fatos e atualizar seu significado através de personagens. Eis um filme quem abandona as alegorias fáceis e procura o simbolismo através de dados extraídos da realidade.
Um soldado que luta pela sobrevivência, um pai seu filho e um ajudante, e mais um piloto, um daqueles poucos a quem muitos deveram tanto, nas palavras de Churchill, além do oficial já citado, são os protagonistas, mas não as únicas figuras importantes deste painel, no qual o tema destacado é o da volta para a casa, algo que acompanha o ser humano desde as epopeias helênicas até os filmes de John Ford. Com a cumplicidade do compositor Hans Zimmer, Nolan cria nos momentos finais trechos notáveis, ao mesclar a chegada dos barcos dirigidos por milhares de cidadãos anônimos com as citações feitas a Nimrod, o belo trecho das Variações sobre um tema original, de Elgar, homenagem a um amigo do autor que o teria ajudado em momento difícil e depois associado a fases de superação e de vitória do humanismo e aqui mescladas às palavras do Primeiro Ministro, transformadas no filme em crença de que o humanismo nunca será vencido. Christopher Nolan se alia com seu novo trabalho aos que souberam utilizar o filme sobre a guerra em manifestos destinados a defender todas as formas de vida.
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