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Porto Alegre, domingo, 23 de julho de 2017. Atualizado às 18h30.

Jornal do Comércio

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Notícia da edição impressa de 24/07/2017. Alterada em 23/07 às 18h29min

Inadimplência em alta no País

Consumidores chegam a ter que quitar 20 dívidas diferentes

Consumidores chegam a ter que quitar 20 dívidas diferentes


LUCIANA RADICIONE/ESPECIAL/JC
Milhares de brasileiros vivem o drama de não conseguir pagar as contas em dia. Com renda em queda e desemprego, as dívidas logo saem do controle. Uma pesquisa da empresa de recuperação de crédito Recovery, feita pelo Data Popular, mostra que hoje o inadimplente deve, em média, três vezes o que ganha e, em alguns casos, acumula até 20 dívidas diferentes.
A maior parte das dívidas foi feita nos últimos três anos - período que coincide com o agravamento da crise econômica no País. De 2014 para cá, a taxa de desemprego mais que dobrou, atingindo 14 milhões de brasileiros. Ao mesmo tempo, a população teve de conviver com a disparada da inflação, escassez de crédito e juro alto. Foi uma combinação perfeita para o aumento da inadimplência, que hoje atinge um contingente de 61 milhões de brasileiros. "É metade da população economicamente ativa", afirma o presidente da Recovery, Flavio Suchek.
O contingente de inadimplentes é o maior em pelo menos cinco anos - início do indicador de Inadimplência do Consumidor da Serasa Experian. "Diferentemente de outros períodos, como em 2012, a inadimplência elevada não é resultado de excesso de endividamento - até porque a carteira de crédito está em queda", explica Luiz Rabi, economista da Serasa Experian. "Não é que o brasileiro esteja se endividando além da conta, é justamente o impacto da crise, com o desemprego em nível recorde. Não é que ele não queira pagar - ele não tem dinheiro."
Na pesquisa feita pela Recovery, o inadimplente tem várias caras e foge de qualquer estereótipo. Um quarto dos endividados pertence à classe alta, e 40% têm Ensino Superior, sendo que 10% são pós-graduados. Na média, cada brasileiro inadimplente tem três dívidas acumuladas, que somam R$ 8.370,00.
Apesar de a maioria dos inadimplentes ainda estar trabalhando, foram o aumento do desemprego e a queda na renda que turbinaram a escalada do atraso nos pagamentos. De acordo com a pesquisa, 43% dos entrevistados apontaram o desemprego como o grande vilão por não estarem em dia com as contas. Outros 19% disseram não ter renda para pagar a dívida, sendo que 27% deles pertencem à classe baixa.
O diretor do Data Popular, Dorival Mata-Machado, afirma que a pesquisa mostrou uma nova percepção da população brasileira em relação à inadimplência. "As pessoas estão menos preocupadas com o nome sujo e mais com o que é justo." Isso significa que os devedores têm pleiteado melhores condições de pagamento, com descontos maiores e juros menores. Mas essa percepção só aparece quando a empresa de cobrança bate na porta da casa dos inadimplentes para receber a dívida. "Até então, a maioria não faz ideia de quanto deve e de quanto paga de juros", diz Suchek. Ainda segundo a pesquisa, 36% dos inadimplentes não sabem o tamanho de sua dívida.
Isso denota que, além de um cenário econômico adverso, pesa na equação - e no bolso - a falta de conhecimento financeiro do brasileiro. "O brasileiro tem dificuldades para lidar com o dinheiro. Para começar, ele superestima a sua renda, em média, em 8%", afirma Bruno Poljokan, diretor da plataforma de crédito on-line Just, do grupo GuiaBolso.
"Há ainda falta de informação sobre as modalidades de crédito, principalmente as mais caras, como cheque especial e cartão de crédito", diz ele. Segundo dados do GuiaBolso, quase 40% dos usuários do aplicativo que pagaram juros mensais de ao menos R$ 5,00 no rotativo disseram acreditar que não estão endividados.
Esse quadro, aos poucos, vai se modificando. Segundo Mata-Machado, do Data Popular, os jovens são os que mais fazem exigências no acerto de contas, por estarem mais conscientes. "Essa população cresceu num período de bonança. Se estivesse com o orçamento apertado, fazia um bico, se endividava e corria atrás. Hoje, eles estão tendo de fazer mais contas."

Consumidor tenta ir às compras, mas esbarra em crédito negado

Brasileiros começam a esboçar alguma disposição a voltar a comprar, mas ouvem "não" de lojas e instituições financeiras quando pedem para parcelar os gastos. Levantamento do SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) mostra que aumentou o número de pessoas que buscam crédito, mas não conseguem o empréstimo.
Dos consumidores que tentaram comprar a prazo em maio, 64% tiveram o pedido rejeitado. Em janeiro, primeiro mês do levantamento, 42% ouviram respostas negativas. Para Marcela Kawauti, economista-chefe do SPC Brasil, as rejeições refletem uma alta na busca por crédito. "A pessoa até resolveu que pode trocar a geladeira agora, mas teve o crédito negado", afirma Kawauti.
Essa situação afeta a recuperação da economia, já que um dos motores da retomada é o consumo, represado pela dificuldade de acesso a financiamento da população. As vendas do comércio em maio, mês tradicionalmente bom para o varejo devido ao Dia das Mães, tiveram queda inesperada de 0,1% sobre abril, segundo o IBGE. O setor de tecidos, vestuário e calçados foi o que mais sofreu, com queda de 7,8%.
Os juros, por sua vez, subiram. O custo médio do crédito pessoal cresceu 3,4 pontos percentuais entre abril e maio, segundo o Banco Central, para 132,6% ao ano. Até a linha para quem busca renegociar dívidas aumentou, dificultando a saída de cadastros de inadimplentes.
Nome sujo na praça e dificuldade para comprovar renda são os principais entraves no acesso ao crédito, segundo a sondagem do SPC, que ouviu 800 pessoas no País. Desde o início da crise econômica, que deixou 14 milhões de desempregados e 60 milhões de consumidores nos cadastros de devedores, instituições financeiras e varejistas se tornaram mais criteriosas, com medo de calotes. "O crédito só vai destravar quando o risco diminuir. (Bancos e varejo) só vão relaxar quando o consumidor tiver mais dinheiro no bolso", acrescenta Kawauti.
A Serasa aponta que cada pessoa com nome negativado tem, em média, quatro dívidas registradas em birôs de crédito, sobretudo de contas de consumo, como água e luz. O mercado contrata esses birôs - empresas que armazenam informações dos consumidores- para saber se um cliente tem boas chances de honrar os pagamentos.
Vander Nagata, vice-presidente de informações ao consumidor da Serasa, diz que nome sujo não significa o fim do acesso a crédito. "Há varejistas com clientes negativados, mas com histórico bom de pagamento. Porém, para quem já está inadimplente, é colocada uma sobretaxa de juros", afirma.
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