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Porto Alegre, quarta-feira, 28 de junho de 2017. Atualizado às 23h51.

Jornal do Comércio

Opinião

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Notícia da edição impressa de 29/06/2017. Alterada em 28/06 às 19h43min

As histórias que habitam a estatística

Yeda Crusius
"Uma a cada 113 pessoas no mundo é hoje solicitante de refúgio", segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur/ONU). O Dia Mundial do Refugiado foi instituído em 20 de junho de 2000 pela ONU, uma data certa para homenagear milhões de pessoas que são obrigadas a fugir de guerras civis, perseguições em decorrência de suas posições religiosas, opiniões políticas, etnia e raça. Não é raro que artistas mundialmente conhecidos gravem pedidos de ajuda, promovam shows em benefício desse ou daquele grupo. O mundo se mobiliza, olha para os campos de refugiados, faz doações e agradece por estar em casa, com os seus, em segurança. Por um dia. Depois, vamos todos viver a vida, porque os horrores que os deslocados e refugiados por conflitos enfrentam em sua caminhada são de tal maneira chocantes que é como se não pudéssemos conviver com eles por mais de 24 horas. Quem ainda se lembra do pequeno Aylan Kurdi, que morreu como se dormisse à beira do Mediterrâneo no dia 2 de setembro de 2015, ou das 423 crianças que se afogaram na mesma travessia no ano seguinte? Em 20 de junho de 2017, o Acnur avisou que uma a cada 113 pessoas no mundo é hoje solicitante de refúgio, deslocado interno ou refugiado. E essa equação dá um número de 65,3 milhões de pessoas. A estatística pode ser global, mas as histórias são individuais. Gente que é forçada a deixar para trás suas casas, culturas, famílias; que fecha portas para nunca mais voltar; e que entra de cabeça em contato com realidades completamente diversas. Um choque cultural que mostra que ainda precisamos crescer muito como indivíduos para estar à altura do desafio que essas grandes migrações representam. E elas não vão parar de chegar, cada uma trazendo na bagagem a dor de seus integrantes. Aqui, as misérias provocadas pelo Estado Islâmico (EI), como no caso de Lamia Aji Bashar, nascida no Curdistão iraquiano, da minoria yazidi, que passou 20 meses como escrava do EI e teve seis donos. Ali, as dores e o preconceito que sofre o refugiado ainda na barriga da mãe, Albert, gerado durante o genocídio em Ruanda, em 1994, que nasceu na Tanzânia para ser criado em um orfanato, com o irmão mais novo, até que ela pudesse recuperá-los. Acolá, em Roraima, é a fuga da repressão sanguinária de Maduro que obriga a advogada Carol Formaniak a deletar quatro páginas de seu currículo para poder encontrar emprego, por ser qualificada demais. É importante ouvir, colocar nomes nos números fornecidos pelo Acnur, individualizar suas dores, olhar para eles e realmente ver. Há apenas duas maneiras de lidar com os que nos procuram, atrás da segurança de nossas fronteiras. Com xenofobia e medo, como está acontecendo na Europa, ou acolhendo com dignidade, devolvendo a essas pessoas a cidadania que perderam ao fugir de suas terras. Ainda engatinhamos na acolhida a deslocados por conflitos, mas já temos por aqui exemplos a seguir, como o da sudanesa Eiman Haru, ela mesma uma refugiada, que, sendo especializada em assistência humanitária, ajuda outras mulheres na mesma situação a recomeçar a vida no Distrito Federal. Se mais e mais de nós procurarmos seguir o exemplo dela, pode ser que, em um futuro não muito distante, o Dia Mundial do Refugiado deixe de ser o único momento em que se fala neles.
Deputada federal (PSDB)
 
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