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Porto Alegre, segunda-feira, 26 de junho de 2017. Atualizado às 23h25.

Jornal do Comércio

Opinião

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artigo

Notícia da edição impressa de 27/06/2017. Alterada em 26/06 às 18h50min

Sobre ruína

José Alberto Wenzel
Junho tem do ano a metade. Uma que foi e outra que chega. Da janela junina tanto se pode olhar para trás quanto à frente. Emoldurando a vidraça, o marco se desfaz em registros acontecidos e promessas buscadas. Cada um tem sua janela. Jeanine tem a sua. Esguia se esgueira junto ao vidro esfumaçado. Atenta, observa a rua, enquanto esta a devolve discreta à casa feita em abandono. Sua janela é imaginária. De há muito foi quebrada. Estilhaçou-se aos poucos. Partiu-se somando cacos. Ela gostava de sua vidraça vazia. Com o vazio poucos se preocupam. O que encontrar ali? Poeiras, umidades, pedaços de coisas partidas, nada de serventia. Porém, vazios instigam, desafiam, apavoram. Despreenchimento que a Janine soava acalanto e segurança. Simplesmente por usufruir de uma janela só sua. Janela que nem janela era.
Da rua voltava todos os dias. Recolhia a friagem invernal. Guardava os "não" já acostumados. Juntava os comandos: "vai trabalhar!". Era bom estar de volta. De seu canto enxergava os prédios amontoados logo adiante. Adivinhava seus moradores aquecidos. Imaginava os programas de televisão vendendo ousadias e felicidades. Ouvia "fica quieto guri". Percebia dores na voz embargada das mulheres silenciadas pelo "não me incomodem".
Naquele entardecer, Jeanine não voltou. Sua estadia fora lacrada. A porta de ferro repuxada a golpes de arrasto dobrara-se encabulada. Dos seus, todos levados adiante. Poderia ter chorado, gritado. Ficou inerte sem nada esperar. Frio por frio já o conhecia sem revolta. Infeliz? Apenas extremamente entristecida. Por si, pelas pessoas, todos filhos e filhas. Por tantos abatidos pelas circunstâncias construídas e destruídas. Lembrou da janela. Aquele cantinho só seu e nunca mais seu. Perdera. Fora-se a metade do ano. Quase. Havia a outra porção. Quem sabe?
Analista ambiental
 
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