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Porto Alegre, quinta-feira, 29 de junho de 2017. Atualizado às 23h01.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 30/06/2017. Alterada em 29/06 às 16h58min

Cenários destruídos

A estreia no longa-metragem do diretor Tyrell Spencer é mais um título a confirmar que no espaço reservado ao documentário o cinema brasileiro tem obtido os seus melhores e mais expressivos resultados. A ideia que anima a produção traz aquela originalidade que despertava a atenção desde que a obra foi anunciada. Exibida no Festival É Tudo Verdade, dedicado àquele gênero, Cidades fantasmas venceu a competição e agora chega aos cinemas.
O projeto prevê uma ampliação que será exibida pela televisão ainda este ano. Mas, como nada supera a tela ampla, é indispensável ver o trabalho principal no cinema, dividido em quatro partes, com cenas filmadas no Chile, Brasil, Colômbia e Argentina. O quarteto exibe virtudes na captação de imagens e também na forma como as une com os depoimentos daqueles que, de uma ou outra forma, estiveram ligados a um cenário agora desaparecido. Spencer é um claro adepto de narrativas erguidas sobre personagens reais, um interessado em depoimentos que possam trazer verdades ocultas. Quando a palavra se torna o ponto principal, a carga dramática em alguns casos tem efeito poderoso e comovedor.
Admirador confesso de Noite e nevoeiro, uma das obras-primas de Alain Resnais na área do documentário, o cineasta não apenas recorre aos movimentos de câmera, que, aos poucos, revelam a extensão da força destruidora de elementos que o filme identifica com clareza. O primeiro longa de Resnais, Hiroshima, Meu amor, era uma narrativa de ficção, mas que tinha início com um documentário sobre a cidade destruída. O fato de que os cenários mortos do filme de Spencer permanecem em ruínas diz muito sobre as sociedades.
O tema presente em todos os episódios é aquele que revela ser a vida humana um fator marcado por sinal inferior àquele reservado a outros interesses. As ruínas focalizadas pelo filme expressam visualmente um fracasso. Enquanto não surge um novo Resnais para filmar com indignação e clareza a cidade de Pripyat, onde estava localizada a usina de Chernorbyl, cujos dramas humanos já foram revelados na literatura por Svetlana Alexievich, laureada com o Nobel e a primeira a registrar através de depoimentos o desastre que terminou sendo o símbolo de um processo que costuma colocar o humano em posição inferior, Cidades fantasmas ocupa um lugar pioneiro, por colocar na tela de forma extensa e contundente tal tema.
O registro de depoimentos registrados pela câmera tem sido muito usado pelo cinema nos últimos anos. Algumas vezes de forma brilhante, como em Shoah, de Claude Lanzmann, e Edifício Master, de Eduardo Coutinho; em outras, apenas para ocupar espaço. O filme de Spencer está entre os primeiros. Tal método, cuja criação Jean-Luc Godard atribuiu a Chaplin, na cena final de O grande ditador, permite que personagens verdadeiros apareçam em cena. É quando o cinema documentário se afirma como a expressão maior do cinema. Não a única, mas aquela que revela que a essência desta arte é a presença de personagens verdadeiros.
O primeiro cenário abandonado e em ruínas é Humerstone, no Chile, uma cidade construída em torno de uma mina, desativada quando não mais servia aos interesses de seus proprietários. O segundo é a famosa Fordlândia, na época em que a borracha extraída no Pará era uma grande fonte de riquezas. Dois desastres completam o filme. O de Armero, na Colômbia, é o que mais impacto causa no espectador, devido aos comoventes depoimentos registrados, entre eles os que reconstituem a destruição de famílias. O caso da menina desaparecida, depois de ser encontrada com vida, é um resumo de tudo o que o filme deseja focalizar. O episódio argentino reconstitui a inundação, causada pelo descaso, de uma colônia de férias e recuperação, Epecuén.
Ao mesclar com habilidade imagens e palavras, Spencer se aproxima de clássicos do gênero e revela que no cinema a dramaticidade extraída de fatos verdadeiros, seja em relatos encenados ou em registros diretos, vale muito mais do que ênfases que quase sempre resultam em distorções e artifícios. Em Cidades fantasmas, o tom é sóbrio e não impede o vigor da denúncia. O filme é construído de forma a se impor pelo que mostra, o método fundamental do documentário.
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