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Porto Alegre, quinta-feira, 04 de maio de 2017. Atualizado às 21h26.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 05/05/2017. Alterada em 04/05 às 17h34min

Imaginação indomada

Apesar das limitações impostas por uma mediocridade que perigosamente se espalha e pelas leis de um sistema de produção cada vez mais controlado por números, o cinema certamente não será derrotado enquanto houver resistentes aos ditames das facilidades e dos lugares-comuns. Ao trazer para a tela a arte e a vida da poeta norte-americana Emily Dickinson, o britânico Terence Davies comete a ousadia de propor ao espectador um filme marcado pelo uso quase constante do plano-sequência e que também procura ressaltar o valor da palavra como elemento essencial a qualquer narrativa cinematográfica que tenha como objetivo povoar a tela de seres humanos verdadeiros.
Não se trata, no entanto, em Além das palavras, de cinema literário. Ao encenar de forma rigorosa o cotidiano da protagonista, o cineasta soube valorizar aquilo que certamente poderia passar desapercebido a olhares desatentos. Mas, assim como sua personagem sabe traduzir em palavras verdades ocultas, o cineasta extrai do pequeno teatro cotidiano situações reveladoras. O filme se constitui em precioso ensaio sobre como a realidade pode ser focalizada de maneira a erguer uma poderosa alegoria sobre o conflito do ser humano com as normas a ele impostas. O século XIX, com sua devoção pela disciplina e sua obsessão em ocultar e reprimir forças da natureza, é o cenário perfeito para o que o cineasta pretendia dizer, ao reconstituir a vida e homenagear a arte de um nome hoje tido como um dos maiores da literatura da época.
No primeiro plano do filme, a protagonista já se revela uma inconformada com as simplificações. E na cena seguinte, a família que surge em cena antecipará seu destino. Emily Dickinson praticamente nada publicou em vida. Foram poucos os poemas impressos e alguns deles sem o nome da autora. Como o filme registra, ela escrevia durante as madrugadas, quando todos dormiam e criava, como se estivesse livre de todas as limitações, uma obra que só a posteridade iria conhecer. Davies elege como principal agente do regime limitador a figura paterna, este símbolo e resumo da autoridade de todo um sistema normativo. Na cena do recital, num teatro de Boston, este enfoque se torna bem claro, quando o pai revela todo o seu desconforto por ver uma cantora no palco. Mas o filme de Davies não se deixa limitar por simplificações. Ao optar pela reclusão, a poeta não deixa de aceitar as leis restritivas, e, por vezes, como na cena do prato quebrado, revelar que a aceitação da proteção da casa paterna não sufocou totalmente a força da rebelião. Em outra cena, quando da visita de um pastor, a jarra que sempre toca nos copos é um símbolo sonoro de uma revolta que então através da ironia se manifesta.
Essencialmente, o filme é um relato sobre a imaginação não dominada pelo cotidiano, até por nele encontrar suas fontes de inspiração. Davies, que também é o autor do roteiro, recorre muitas vezes à poesia de Dickinson para enfatizar o significado de certas cenas. Nos momentos derradeiros, o tema da morte, presente em vários poemas da biografada, de certa maneira permite à ligação com um trecho anterior quando a protagonista faz uma menção à posteridade. Em outros trechos, sobretudo durante a visita da tia, surge o mundo diante do qual se posicionará, em desafio, a autora. Outro exemplo deste mesmo mundo está na já citada cena da visita do pastor. A esposa do visitante não deixa dúvida sobre a severidade que rege a vida dos contemporâneos da poeta.
Esta, por sua vez, representa a imaginação que pode nascer da felicidade ou do sofrimento. As paredes da casa não são um empecilho para quem, mesmo não conhecendo o mar, possa imaginar como são as ondas, como ela própria diz em um de seus poemas. A dor suprema é a da doença incurável, mas, no filme, também esta é o símbolo de um sofrimento causado pela ausência da realização plena. Sem dúvida, o filme, que começa com uma imposição e termina no túmulo aberto, resume uma vida que adquire significado pela arte, porém é limitada pelo tempo e prisioneira dos rigores das leis humanas.
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