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Porto Alegre, quarta-feira, 12 de abril de 2017. Atualizado às 23h11.

Jornal do Comércio

Colunas

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Notícia da edição impressa de 13/04/2017. Alterada em 12/04 às 16h59min

Coragem e experimentação

Estreado em 2015, em Montenegro, onde o grupo desenvolve seu trabalho, Fidelidade oculta chegou ao espaço do Teatro Novo. Com isso, o Teatro Novo abre uma nova frente de atividades, que é disponibilizar seu espaço a outros grupos que não o próprio, o que é muito bom, pois evita que o espaço fique eventualmente vazio quando o próprio grupo não tiver produção. Por outro lado, facilita a chegada de grupos de cidades próximas a Porto Alegre, que podem mostrar suas produções e melhor desenvolverem sua pesquisa. É o caso da Troupe Xipô, de que já havia assistido, anteriormente, a um outro trabalho. Animado por Suzana
Schoellkopf, ela propõe uma linguagem híbrida entre dança e teatro, a que não está ausente o vídeo e o cinema. O resultado é este provocante Fidelidade oculta que traz, além do mais, explorações psicológicas marcadas pelas teorias freudianas, segundo a compreensão da criadora da coreografia e direção do espetáculo.
Na noite em que compareci ao teatro, houve problemas com a queima de algumas lâmpadas e consequente atraso no início do espetáculo, que não é longo, aliás, menos de uma hora. Mas se todo o mundo aderiu com simpatia à ideia de esperar, quem ficou foi recompensado. Se há uma coisa de que ninguém pode se queixar do espetáculo de Suzana Schoellkopf é de falta de criatividade e ideação.
O espetáculo abre com uma trilha sonora clássica dos grandes bailados russos. Na tela, projeta-se uma charneca romântica, mais que isso, gótica. De repente, entra em cena um(a) bailarino(a) que, em pernas de pau, faz movimentos que deveriam ser leves, mas que são quase desastrados. Quebra-se toda a sugestão poética.
As imagens que se seguem, as situações e os conflitos que se desenvolve em cena, ao longo de todo o espetáculo, continuam esta linha. Na sequência final, personagens saem de uma geladeira e a ela retornam, depois de realizarem suas cenas. Suzana brinca e quebra a tradição de todos os elementos mais tradicionais do chamado balé clássico, mostrando, de um lado, consciência do que está propondo e, de outro, coragem ao romper com tal tradição. O elenco, formado por Erasmo Breitenbach, João Pedro Decarli, Nina Picolli, Patrick Moraes, Samira Abdalah e a própria Suzana Schoellkof tem preparação variada entre o teatro e a dança. Mas evidencia, sobretudo, uma confiança muito forte em sua coordenadora, porque, certamente, nem todo o bailarino ou ator gostaria de colocar-se em uma aventura deste tipo, sobretudo quando enfrenta um público da capital. O grupo, contudo, evidencia que já tem tarimba para fazer viagens e enfrentar públicos diversos, de maneira que se sai a contento.
Entre a ideia e a execução, evidentemente, pode acontecer muita coisa. Neste caso concreto, tivemos o atraso que, claro, pode mexer com os nervos dos atores. No entanto, acho que não é este o motivo direto de o ritmo do trabalho ser demasiadamente lento, às vezes cansativamente lento, como se a coreógrafa não confiasse na sensibilidade do espectador e precisasse destacar e reiterar muitas vezes aquilo que pretende dizer para ser compreendida. Acho que Suzana Schoellkopf deve ter tranquilidade quanto a seu trabalho: ela é uma boa coreógrafa, tem excelentes ideias, domina a contento a gramática da dança e do espetáculo e sabe liderar um grupo, inclusive na medida em que se integra a este mesmo grupo, enquanto bailarina.
Por muito tempo, a dança permaneceu num templo sagrado, que se tornou um mausoléu. A chamada dança moderna quebrou este tabu e abriu caminhos que permitem a artistas como Suzana experimentar, sem qualquer temor, e pôr em prática suas ideias. Algumas darão certo, outras nem tanto. Mas o que interessa é que, enquanto se experimenta, a gramática da dança vai se expandindo e com isso ganhamos todos aqueles que gostamos, realmente, da dança.
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