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Porto Alegre, quinta-feira, 02 de março de 2017. Atualizado às 21h50.

Jornal do Comércio

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Jaime Cimenti

Livros

Notícia da edição impressa de 03/03/2017. Alterada em 02/03 às 18h48min

Bastidores da Lava Jato

Detalhe da capa de Lava Jato - O juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil

Detalhe da capa de Lava Jato - O juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil


/JC
Lava Jato - O juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil (Primeira Pessoa, 384 páginas), do premiadíssimo jornalista mineiro Vladimir Netto, repórter da TV Globo e vice-presidente da Associação Brasileira de Jornalistas Investigativos, é possivelmente o melhor e mais completo livro sobre a Operação Lava Jato, que está mudando nosso País.
Netto já passou pelas redações de Jornal do Brasil, Veja e P Globo e nos últimos anos recebeu inúmeros prêmios importantes, como o de Furo de Reportagem do Jornal Nacional em 2013 e o de Melhor Reportagem do Jornal Hoje por ter revelado documentos de contas do exterior atribuídos a Eduardo Cunha, e, em equipe, o de Grande Cobertura pelo noticiário sobre a Lava Jato.
A Lava Jato mudou o curso da história do Brasil e a obra de Netto, realizada com entrevistas, pesquisas, viagens e trabalhos exaustivos, desde janeiro de 2015 até maio de 2016, iniciou logo após a cobertura da posse de Dilma Roussef, reeleita. O livro tem apresentação do jornalista Fernando Gabeira, que escreveu: "Conhecer a Lava Jato e sua trajetória, portanto, é conhecer uma das maneiras pelas quais o Brasil pode construir um novo caminho para dificultar a corrupção e puni-la com severidade".
O livro de Netto conta com detalhes e informações checadas como as coisas começaram num posto de gasolina, com investigação do doleiro Alberto Youssef e seguiram com apurações e prisões envolvendo o coração da República.
Os capítulos curtos, a linguagem ágil e jornalística e o conteúdo do volume faz com que a leitura seja parecida com a de um bom romance policial. As fotos em cores dos magistrados, políticos e policiais retratam a dramaticidade esse período de mudanças, só comparável, provavelmente, ao Plano Real, que foi até hoje o fato histórico mais marcante da história do Brasil.
Nosso futuro está em aberto, não sabemos ainda como será o andamento da Lava Jato, mas o livro de Netto é um registro fiel, detalhado e escrito em terceira pessoa. Com humildade e sabedoria a autor preferiu respeitar uma velha lição de sua profissão: jornalista não é notícia. Lição esta que anda meio esquecida, num tempo de egos do tamanho de estádios de futebol. Netto, nas páginas finais, faz justiça e agradece a dezenas de pessoas que tornaram possível seu trabalho. A Lava Jato não é tarefa de um homem só e o livro de Netto, que vai contando a história na medida em que as coisas foram acontecendo, igualmente não poderia ser trabalho individual. De mais a mais, a história da Lava Jato começou há pouco e certamente vai seguir. Os brasileiros torcem para que a Lava Jato não seja amordaçada e para que se consiga, de uma vez por todas, passar o Brasil a limpo.

lançamentos

  • O Socialismo (Edipro, 240 páginas, R$ 45,00, tradução de Sandra Guimarães), do grande sociólogo francês Émile Durkheim, de renome mundial, traz preciosa definição de socialismo, estudo sobre origens e um estuda o pensamento de Saint-Simon. O autor se preocupa com a harmonização entre a estrutura social e o advento do capitalismo.
  • Inter Grande - Do Tamanho do Mundo (Flávio Possani, editor, 147 páginas), organizado por Otavio Rojas, traz textos de grandes colorados, como Dilto Nunes e Fernando Carvalho, sobre os 18 anos do Movimento Inter Grande e as grandes conquistas do Campeão de Tudo no período dirigido por integrantes do movimento.
  • Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa (Ateliê Editorial, 264 páginas), de Fernando Cabral Martins, grande estudioso e pesquisador do poeta e coordenador do dicionário temático sobre Pessoa, traz vida e obra de forma integrada. O amor, a linguagem modernista e a criação de heterônimos estão na obra, entre outros remas de relevo.

Águas de março

É pau, é pedra, é o fim do caminho... mas as águas de março também trazem promessa de vida para o coração, como versejou com brilho Tom Jobim, nascido há noventa anos e que faz tanta falta para nós e para a Pátria.
Antigamente a gente dizia que as coisas no Brasil começavam só depois do carnaval. Agora com a Lava Jato, a pindaíba econômica e os rolos políticos federais, estaduais e municipais, nossa estonteante e ensurdecedora vida nacional não para nem no alto verão e vamos seguindo, atônitos, assistindo aos telejornais de terror, tentando escapar de balas perdidas e enfrentado a roleta russa de outras inseguranças cotidianas.
Num artigo recente de Arnaldo Jabor, estão as palavras do lendário cineasta Humberto Mauro, falando sobre a alma do cinema. Disse ele que cinema é cachoeira, que só o movimento interessa. Jabor encerra o texto dizendo que a melhor definição de vida é também cachoeira.
Pego carona na cachoeira, mesmo sem me meter em aventurosas canoagens em corredeiras e cascatas e acho boa a metáfora. Hoje tudo e todos andam rápidos, inquietos, movimentados e transformadores, feito cachoeiras. O futuro já chegou faz tempo e já não temos tempo nem para ficar chocados. Estamos anestesiados diante dos choques do futuro, do livro famoso do Alvin Toffler.
Quando processamos ou entendemos algo ou alguém, logo a cachoeira segue e mostra que a coisa e os seres mudam, rápido. É a sociedade e as pessoas líquidas, como escreveu o Zygmunt Bauman, que nos deixou há pouco e que passou décadas estudando e escrevendo sobre a "modernidade".
Os cronistas são os biógrafos do cotidiano e tentam registrar os acontecimentos de seu tempo. Os cronistas de hoje estão atarantados, como a maioria de nós, envoltos em muitos sons, imagens, ruídos, palavras, discussões intermináveis e palavrórios de muitos sentidos e falta de sentido. Mas é isso, a vida deve ter mais perguntas que respostas. Ninguém sabe tudo. Nem deve saber, que aí a vida não seria essa graça triste, essa beleza por vezes apavorante e esse mistério sem fim.
Tomara que as águas e cachoeiras deste março nos levem a algum entendimento, alguma saída nacional e tomaram que possam ser cristalinas e limpas e que tragam promessas de vida em nossos corações, como disse Tom Jobim em sua Águas de Março, uma das melhores - senão a melhor - canção que temos. Lava Jato, águas, cachoeiras, limpezas, tudo a ver.
As águas de março fecham o verão, mas não fecham nossas esperanças e nossos sopros de vida. As estações do tempo, dos trens e dos ônibus vão continuar, nos levando para cá e para lá, num movimento vivo e interminável de cachoeira. Vida é movimento, é curva de mulata desenhada por Niemeyer enfeitando o sambódromo, mas vida também é silêncio de paz e parada saudável, para descansar e tomar um gole de água, mesmo que seja no escuro.

a propósito...

O filósofo grego Heráclito disse que em meio às mudanças constantes da vida não entramos no mesmo rio duas vezes. Os gregos já sabiam de tudo, muito antes da "modernidade". Pois é, Heráclito, essa coisa do rio, pode ser, pode não ser. Na memória, por exemplo, as coisas acontecem muitas vezes e aí o rio que entramos às vezes pode ser o mesmo. Nunca passamos por tantas transformações em tão pouco tempo. Mas o importante, o essencial, é a eternidade de certos instantes, é se assustar e se maravilhar com a existência, é perceber que no meio do mar de mudanças há permanências, como velhos faróis nos penhascos. 
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