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Porto Alegre, quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017. Atualizado às 22h19.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

crítica

Notícia da edição impressa de 24/02/2017. Alterada em 23/02 às 17h37min

Suspeita

São tantas as virtudes em termos formais de Aliados que se torna possível classificar o filme como uma demonstração de que o cinema voltado para um público amplo, marca registrada da maior parte da produção cinematográfica norte-americana, continua vivo e capaz de colocar na tela espetáculos marcados por inegáveis atrativos, além de expor temas que, nem sempre, realizadores mais ambiciosos conseguem transformar em imagens. No passado, obras atualmente integrantes de antologias não eram a unanimidade que muitos imaginam. E certamente é curioso ressaltar, também, que muitos filmes tidos como obras-primas desapareceram de listas de destaque.
O novo filme de Robert Zemeckis provavelmente não será lembrado como um título marcante, mas seria injusto não ressaltar que a obra que lhe serve, em parte, de modelo, Casablanca, embora premiada com o Oscar, nunca foi objeto do entusiasmo da maioria dos críticos. O tempo terminou transformando o filme dirigido por Michael Curtiz em ponto de referência e em expressivo exemplo de como transformar a emoção em caminho para a lucidez. E vale também lembrar que Alfred Hitchcock, outra influência, que apreciava abordar o tema da personalidade oculta, algo que soube fazer de forma brilhante em várias obras-primas, só recentemente recebeu a consagração merecida, com a colocação de Vertigo na liderança dos maiores filmes de todos os tempos, segundo a enquete realizada pela revista Sight & Sound entre críticos e diretores de vários países.
O diretor de Aliados tem uma filmografia inteiramente voltada para o cinema narrativo tradicional. Ele tem mostrado sua competência em obras que já fazem parte da história mais recente do cinema, como a trilogia De volta para o futuro e o grande sucesso Forrest Gump. Recentemente, submeteu plateias com medo de altura a uma dura prova com A travessia, filme no qual reconstituía a façanha de Philippe Petit, que, em 1974, uniu, com sua coragem e equilíbrio, as torres que, em 11 de setembro de 2001, seriam destruídas.
Agora, narrando um drama desenrolado em Casablanca e Londres, durante a Segunda Guerra Mundial, ele volta a mostrar suas virtudes de narrador, assimilando propostas de clássicos e acrescentando, graças a um poder de observação inegável, doses de dramaticidade que contribuem para que seu novo trabalho se mantenha, da primeira à última cena, num nível que faz com que o interesse não diminua em toda a narrativa. Há uma cena, por sinal primorosa, que resume tudo. É aquela na qual o aviador, interpretado por Brad Pitt, é informado de que sua mulher, vivida pela francesa Marion Cotillard, é uma provável espiã nazista. O plano de curta duração, que mostra o detalhe da arma do oficial da inteligência britânica, expressa com clareza a forma como pode agir o poder quando ameaçado.
O filme não trata apenas de uma suspeita, pois também sabe desenvolver, de forma apropriada, esse conflito entre o humano e as estruturas que sustentam uma sociedade ameaçada. O casal, que tem sua harmonia desfeita, é um elemento estranho num mundo em guerra. Há interesses maiores em jogo, nesse ritual em que o disfarce predomina. O olhar de surpresa que a mulher de uma das vítimas do atentado dirige para a francesa revela a intensidade de uma descoberta, uma mescla de decepção e terror. É possível acreditar num futuro harmonioso, como diz a imagem final, mas tal paraíso é alcançado através de um desejo concretizado nas palavras de uma carta. Como no antológico Casablanca, sonhos se desfazem diante da realidade.
E o filme de Curtiz é claramente lembrado na cena do piano, com a referência feita a Marselhesa, elemento essencial em uma das antológicas cenas daquele clássico, trecho que, de forma indireta, está presente em um dos melhores momentos do trabalho de Zemeckis. Méritos também existem na reconstituição de época. Sem desprezar o conjunto, é necessário lembrar que há elementos desnecessários durante a ação, que aparecem apenas para dar um toque de modernidade ao relato, como na cena da festa, e outros recursos que apelam para facilidades de um simples filme de ação. Mas esses pequenos detalhes não impedem que Aliados cumpra a missão de ser um relato atraente e sem espaços em branco.
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