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Porto Alegre, quinta-feira, 15 de dezembro de 2016. Atualizado às 20h35.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

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Notícia da edição impressa de 16/12/2016. Alterada em 15/12 às 17h14min

A crise maior

Como todas as artes, o cinema também tem seus clássicos. A criação de cinematecas e as atividades de instituições culturais destinadas à preservação e à divulgação de filmes após suas exibições nos cinemas terminaram por criar, em todo o mundo, um interesse qualificado pelo passado das imagens em movimento.
Mesmo assim, principalmente do período que vai da invenção do cinema até o surgimento do sonoro, muitos filmes foram perdidos e até mesmo a obra completa de alguns cineastas desapareceram completamente, como a de Harry d'Abbadie d'Arrast, argentino de nascimento e que nos Estados Unidos foi assistente de Chaplin antes de realizar filmes saudados com grande entusiasmo.
Há outros exemplos, e a constatação de que pouco sobrou da época do cinema silencioso abre um espaço vazio que jamais será preenchido. Com o crescimento da indústria cinematográfica, no entanto, as grandes empresas produtoras criaram seus arquivos de filmes e a produção começou a ser preservada, até porque, na salvação de seus produtos, as grandes companhias passaram a ver nos filmes por elas produzidos um investimento a ser preservado.
Antes do surgimento de meios de reprodução que passaram a permitir a visão de filmes em casa, com as limitações conhecidas, os chamados festivais de clássicos eram seguidamente apresentados nos cinemas, principalmente pela Metro, que aqui em Porto Alegre os apresentava nos dois cinemas que controlava, o Avenida e o Colombo. Mais tarde, por iniciativa da Cinemateca Brasileira e do Clube de Cinema, clássicos soviéticos, poloneses, alemães e britânicos foram apresentados em amplas mostras retrospectivas realizadas no Salão de Atos da Ufrgs. Em anos recentes, o Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro e em São Paulo, tem realizado mostras de importância por apresentar a obra completa de cineastas com lugar na história do cinema.
A entrada em cena do DCP, um substituto da película que transformou a exibição de filmes em cinemas em algo que não pode ser comparado com qualquer outra forma de projeção, tem propiciado o retorno de alguns clássicos, apresentados com tal nitidez e luminosidade que talvez nem os contemporâneos de tais obras tenham presenciado. É claro que é necessário o interesse dos exibidores em respeitar o público.
Em nossa cidade, a maioria dos cinemas utilizam tal processo de forma correta. Já foram exibidos vários clássicos, em sessões em horários alternativos, e o retorno de Blow-up, um dos maiores filmes de Michelangelo Antonioni e de todo o cinema até hoje realizado, em mais de uma sala e em horários acessíveis, pode ser o início de uma fase no qual o cinema do passado possa ser visto no lugar certo e valorizado por uma técnica de projeção que permite a contemplação de todos os seus méritos. O projeto que está colocando nas telas o filme de Antonioni deverá exibir a seguir outros clássicos. Está, portanto, com o público a decisão visando à continuidade de um processo que permite o indispensável conhecimento do passado.
Realizado em 1966, Blow-up não é apenas um clássico do cinema: é um documento revelador de uma época e também uma espécie de profecia, que, depois de meio século, está plenamente confirmada. Se Vertigo, de Alfred Hitchcock, antecipou O ano passado em Marienbad, de Alain Resnais, não há dúvida que o filme de Antonioni tem como matriz Janela indiscreta, mesmo que a fonte literária tenha sido um conto de Julio Cortázar. O tema central da filmografia de Antonioni, a desumanidade e o isolamento dos seres humanos, tem, neste clássico, uma de suas variações mais expressivas. Todo o trabalho de investigação da realidade e o interesse em desvendar um crime são substituídos pelo falso jogo de tênis, uma imagem poderosa sobre o vazio de um mundo dominado pelo supérfluo e a mentira. O instrumento quebrado e depois duas vezes jogado fora é o resumo de um processo dominado pela agressividade e a falta de sentido. E há também a criança colocada atrás de uma grade - a prisão que há 50 anos estava começando a ser construída. Blow-up certamente permanecerá, pelo menos enquanto existirem sinais de civilização, um ponto de referência fundamental para a compreensão de uma crise.
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