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Porto Alegre, quinta-feira, 17 de novembro de 2016. Atualizado às 21h49.

Jornal do Comércio

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Jaime Cimenti

Livros

livros

Notícia da edição impressa de 18/11/2016. Alterada em 17/11 às 17h16min

O sacrifício que fazemos pelos filhos

Tudo que deixamos para trás (Bienes Histoire, Morro Branco, 480 páginas, tradução de Kristin Lie Garrubo), romance de Maja Lunde, autora e roteirista norueguesa, nascida em Oslo, onde vive até hoje com o marido e três filhos pequenos, recebeu o prestigiado prêmio de melhor livro de 2015 pela Associação de Livreiros da Noruega (Norwegian Booksellers' Prize 2015), se tornando a primeira obra de uma autora estreante a receber a honraria.
A autora escreve roteiros para programas de televisão e participou da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre. A Editora Morro Branco, que trouxe Maja ao Brasil, é focada na promoção de autores e idéias dentro de uma visão global, preza pela qualidade dos títulos, visa criar novos leitores e empenha-se na difusão de novos conceitos e no efetivo intercâmbio cultural.
A narrativa acima de tudo trata do sacrifício que os pais fazem pelos filhos e, muito mais do que uma mera distopia sobre o desaparecimento das abelhas, é um alerta sobre as nefastas consequências de um pensamento limitado e sem foco no futuro. Não é pouca coisa. O tema é de interesse mundial.
Em três linhas temporais, a autora cria um panorama global da humanidade e sua relação com a natureza. Mostra como o desaparecimento das abelhas pode afetar o mundo todo, especialmente os humanos. Com mestrado em Mídia e Comunicação, pela Universidade de Oslo, a autora escreveu aclamados livros infantojuvenis. Neste, conta sobre William, deprimido biólogo inglês, que em 1852 deseja criar um novo tipo de colméia capaz de trazer reconhecimento para a família.
Em 2007, George, apicultor americano, luta para manter o negócio produtivo e acredita que seu filho pode ser a salvação da fazenda. Em 2098, numa China futurista, quando todas as abelhas sumiram, Tao trabalha com polinização manual. Enquanto passa seus dias pendurada em árvores, deseja para seu filho uma educação e vida melhores do que a sua.
Assim, presente, passado e futuro se encontram e se enovelam, numa poderosa história, onde muito mais do que a narrativa sobre o desaparecimento de abelhas, é mostrada a luta e o sacrifício que fazemos por nossas famílias. Complexo e bem escrito, o romance tem como ponto forte o núcleo filosófico, que defende que o bem-estar dos seres humanos e, talvez a própria sobrevivência da nossa espécie, dependa da capacidade de lutar contra a nossa própria natureza.

Qual o papel do escritor nos tempos das telas?

Levantadas mais uma vez as eternas barracas temporárias da 62ª eterna Feira do Livro, a gente segue pensando sobre livros, escritores, literatura, papel dos escritores em tempos paperless, em tempo eletrônicos, de e-books e outras novidades e onde até o presente parece passar rápido demais diante dos nossos olhos, ouvidos, olfato, tato e paladar bombardeados por tantos estímulos, com tanta rapidez.
Livros e escritores seguirão a existir, em formas e plataformas diferentes, que contar e ouvir histórias é tão necessário como respirar, beber e comer.
Já houve tempo, na época das cavernas, em que se contavam histórias ao redor do fogo para espantar o medo da noite e dos pesadelos do sono ou simplesmente para relaxar das caçadas de javalis. Já houve tempo em que contar histórias todas as noites era para salvar a própria pele, como Sherazade, em Mil e uma noites. Já houve tempo em que a literatura era ferramenta poderosa utilizada para registrar o sagrado, para compor coletivamente o Livro dos Livros, a Bíblia.
Escrever literatura já foi projeto estatal e, claro, não deu certo. Nem poderia e ainda bem. Literatura e liberdade devem ser como irmãs xifópagas e sem cirurgia para separá-las.
Escritores já usaram do talento da pena e da força da tinta para divulgar ideias, partidos, políticas, filosofias e outras coisas. Funcionou aqui e ali, mas, ao fim e ao cabo, as verdadeiras palavras e as grandes histórias não precisam de muletas para circularem livremente pelo planeta. Com disse o Quintana, sempre ele, sábio, uma boa causa não salva um mau poema. Por aí.
Mesmo depois de tanta história, de tanta ciência, de tanta política e filosofia e tanta sapiência e academias e acadêmicos empolados, a verdadeira dramaturgia e a verdadeira prosa seguem livres de amarras, regras e manuais. Literatura não é enciclopédia, nem livro de história, nem tratado científico, político ou filosófico.
Literatura é outra coisa. É a liberdade total, o ilimitado, o individual, o coletivo, o mergulho, a viagem, a descoberta e o novo de cada um, que sempre existe e existirá. Mesmo num mundo que pensa que sabe tudo, que tem informação e barulho demais, que tem tudo demais, a literatura ainda tem muitas palavras e muitos silêncios que ainda não foram ditos.
Quem sou, quem és tu e quem somos nós para dizer qual o papel do escritor, da literatura? O papel é descobrir qual o papel, cada um e todos. Algumas regras de legibilidade mínimas e algumas cortesias estéticas para os leitores, tudo bem, que a comunicação tem de acontecer. Mas não é preciso fabricar best-sellers como se fossem salsichas. Nada contra os deliciosos hot-dogs, que fique bem claro.
O papel do escritor e da literatura é apresentar, acima de tudo, algo novo que desperte sentimentos, inquietações, prazeres, emoções, razões e sensações nesses habitantes tão sabidos, empedernidos e informados deste século XXI cambalacheante.

lançamentos

  • Paulinho da Viola e o Elogio do Amor (Ateliê Editorial, 148 páginas), da cantora e escritora Eliete Eça Negreiros, reflete sobre a representação do amor na obra do compositor e sua inscrição no âmbito da tradição do pensamento e da lírica ocidental. A autora relaciona Paulinho com Safo, Platão, Aristóteles, Montaigne, Freud, Walter Benjamin e Octavio Paz.
  • Surtando em Wall Street - Memórias de um operador do Lehman Brothers (Zahar, 390 páginas, tradução de Alexandre Martins), de Jared Dillian, fundador e diretor do The Daily Dirtnap e ex-diretor da Lehman Brothers, é um relato ácido e verídico sobre os anos finais de um dos bancos responsáveis pela crise de 2008 e um dos primeiros a quebrar.
  • Sete Dias (Libretos, 154 páginas), do professor universitário e escritor Antonio D. Cattani, também autor da novela policial L., traz It's e It'll, dois irmãos que tinham tudo para passar uma semana de paz e que acabou se transformando em um inverossímil folhetim de desventuras. E o cachorro? Bom, aí as coisas se complicam...

a propósito...

No ano passado, livros de colorir para adultos e crianças surgiram não se sabe de onde e fizeram sucesso em vários lugares do mundo, inclusive aqui no Brasil. Editoras faturaram. Neste ano, a moda parou. Mistérios do mundo dos livros, da literatura, da área editorial. Ninguém explicou ou vai explicar, nem precisa de explicação.
Que venham outros fenômenos e mistérios, que disso precisamos. Esse é o fascínio dos livros, dos escritores, de editar. O salto no escuro. O imprevisto. O papel/tela em branco do escritor e da literatura que ainda não foi preenchido. Literatura, liberdade, criação, que bom que essas coisas ainda existem, num mundo onde tudo parece sob (des)controle. 
 
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