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Porto Alegre, sexta-feira, 18 de novembro de 2016. Atualizado às 18h09.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 18/11/2016. Alterada em 18/11 às 19h11min

O mar e o sacrifício

Falar de um filme como este Pequeno segredo, de David Schurmann, sem mencionar as polêmicas que cercaram sua indicação a um lugar pela disputa ao Oscar, seria ignorar o fato de que a estatueta da Academia de Hollywood se transformou no mais cobiçado dos prêmios internacionais, graças à televisão, que há alguns anos atrás era apontada como a maior inimiga do cinema e terminou se transformando numa poderosa aliada. Atualmente, tal prêmio, em se tratando de repercussão, supera os festivais de Cannes, Veneza e Berlim, sendo, portanto, perfeitamente natural que produtores de todo o mundo tenham aquela cerimônia anual como alvo a ser atingindo.
Os próprios organizadores têm feito questão, nos últimos anos, de prestigiar cineastas, atores, atrizes e técnicos estrangeiros, indicando nomes de outros países até mesmo para a categoria principal, além daquela dedicada a países de língua não inglesa. Todos sabem que Fernanda Montenegro por sua atuação em Central do Brasil concorreu ao prêmio de melhor atriz, não tendo sido a primeira estrangeira a ter tal participação. Ser indicado ao Oscar não deixa de ser, portanto, independentemente da premiação final, uma grande oportunidade de conseguir lugar no mercado internacional. Quanto ao prêmio, este, em toda a sua história, tem destacado nulidades e também filmes importantes. Sem falar em algumas obras-primas. No caso do Brasil, a indicação do filme de Schurmann teria sido feita por tal trabalho ter todas as características apreciadas pelos jurados da Academia. Mas esta afirmação não corresponde à realidade.
Se olharmos os anos recentes, no qual foram premiados filmes como o italiano A grande beleza e o polonês Ida, é possível constatar que a exaltação de sentimentos nobres e gestos de humanismos foi substituída por uma visão amarga da realidade e a condenação de elementos impulsionados por forças degenerativas. Tal fato se torna ainda mais evidente se destacarmos que o título estrangeiro premiado no ano passado foi o contundente e impressionante O filho de Saul, um filme húngaro que focalizava de forma inédita o inferno de Auschwitz. Portanto, a indicação de Pequeno segredo entra em choque com a tendência dos jurados da Academia, se ela foi feita a partir da ideia de que a exaltação do gesto de humanismo e lances dominados pelo sentimentalismo são credenciais indispensáveis. É claro que o filme de Schurmann poderá ser selecionado, o que seria ótimo para o cinema brasileiro, mas os argumentos usados para sua indicação são, no mínimo, a revelação de que os responsáveis por ela desconhecem as tendências atuais da Academia de Hollywood. E, além disso, ver no Oscar a conquista mais importante é também esquecer que nomes significativos nunca o receberam. E também é necessário lembrar que, por outro lado, figuras realmente grandes foram premiadas. Um prêmio é só uma distinção, por vezes de repercussão passageira.
Pequeno segredo tem méritos inegáveis. O roteiro, do qual Schurmann participou e no qual também trabalhou Marcos Bernstein, um dos roteiristas de Central do Brasil, acerta ao desenvolver paralelamente as duas linhas narrativas, que se encontram a partir de determinado momento. Tal escolha faz com que a atenção do espectador seja mantida, mesmo que ele saiba os pontos principais da história narrada. Do ponto de vista formal, o filme também se revela trabalho de profissionais do ramo. Além disso está incluído entre os que privilegiam personagens em vez de alegorias. No caso, trata-se até mesmo de um relato no qual a família do diretor está diretamente envolvida, algo que certamente fez com que certas cenas tenham sido dirigidas com bastante emoção. As palavras ditas pela mãe adotiva para a avó preconceituosa resumem a intenção do diretor, que é a de exaltar o sacrifício destinado a trazer conforto a uma menina condenada. Há filmes empenhados em criticar as leis feitas para limitar as ações dos indivíduos ou transformá-los em prisioneiros. E há os que focalizam as reações diante de fatalidades geradas pela natureza. Pequeno segredo pertence ao segundo grupo.
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