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Porto Alegre, sexta-feira, 11 de novembro de 2016. Atualizado às 19h26.

Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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Indústria Criativa

Notícia da edição impressa de 07/11/2016. Alterada em 11/11 às 20h30min

Indústria audiovisual: luz,câmera e muita ação

Volume de produções para cinema, televisão e outras mídias tiveram um salto, com aumento na oferta de empregos no País

Volume de produções para cinema, televisão e outras mídias tiveram um salto, com aumento na oferta de empregos no País


KUES VIA FREEPIK.COM/
O audiovisual brasileiro, a despeito da recessão no Brasil, exibe crescimento cinematográfico. Em 2014, o setor gerou R$ 24,5 bilhões em renda para a economia do País, contra R$ 8,7 bilhões em 2007, aponta pesquisa da Agência Nacional do Cinema (Ancine). É uma expansão que beira 9% ao ano. Superou, por exemplo, o valor adicionado pelo comércio de veículos automotivos no País, que foi de R$ 22,74 bilhões dois anos atrás, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O robusto crescimento percorre o tapete vermelho puxado por legislações criadas para regrar e impulsionar o setor na última década.
Este ano, o crescimento já bateu 10%, de acordo com profissionais dessa indústria, que enfrenta agora novos desafios. O freio na economia resultou, por exemplo, na redução da base de assinantes de TV por assinatura, que, em agosto, chegou a 18,9 milhões ou 27,78% dos lares brasileiros. Em igual mês de 2015, eram 19,6 milhões, o equivalente a 29,5% dos domicílios. Outro ponto sensível é a transformação do mercado trazida pela evolução tecnológica. O vídeo sob demanda (VoD, na sigla em inglês), tido como a nova fronteira para a expansão do audiovisual, ainda não conta com regulação no Brasil.
"Neste ano, a previsão é de crescimento menor e, na pior das hipóteses, se teria uma estabilização das atividades do audiovisual no Brasil. No entanto, até outubro, houve aumento de 10% em ingressos de cinema vendidos e em participação de bilheterias. Foram abertas mais cem salas de exibição", diz Manoel Rangel, diretor-presidente da Ancine.
O faturamento do setor alcançou R$ 44,8 bilhões em 2013, ou R$ 55,4 bilhões em valor corrigido para julho deste ano, segundo pesquisa da Consultoria Tendências, a pedido da Motion Picture Association da América Latina (MPA-AL), entidade que representa os seis maiores estúdios de Hollywood no mundo, e do Sindicato do Audiovisual (Sicav).
"O audiovisual manterá o crescimento de dois dígitos este ano. Há acerto em políticas de incentivo e financiamento, o setor de entretenimento cresceu com o ganho de renda da população e o Brasil está em linha com as tendências criativas do mundo. Se houver opções regulatórias adequadas, o setor ganhará mais capacidade de crescer", avalia Ricardo Castanheira, presidente da MPA-AL.
Um pilar estaria na base de sustentação do crescimento do setor mesmo na turbulência econômica, aponta Walkíria Barbosa, diretora do Festival do Rio e da Total Entertainment. "O audiovisual conta com pontes de financiamento que não dependem do desempenho da economia em geral. E isso mantém as produções não apenas sendo feitas como também crescendo."
O Fundo Setorial do Audiovisual é alimentado principalmente pela Condecine, tributo pago para veiculação, produção, licenciamento e distribuição de obras audiovisuais com finalidade comercial pelo próprio setor. "O motor de financiamento está atrelado ao desempenho da indústria. Não são isentos de sofrer impacto do quadro macroeconômico, mas, em 2013 e 2014, juntos, tivemos R$ 1,2 bilhão em recursos do Fundo. Ano passado, foram R$ 630 milhões, e a previsão para este ano é de R$ 730 milhões", afirma Rangel.
Há outras fontes disponíveis. O Bndes por exemplo, conta com uma linha para o audiovisual, cujos desembolsos alcançaram R$ 321,4 milhões entre janeiro e setembro, um avanço sobre os R$ 249,8 milhões registrados em igual período de 2015. "Na crise, os financiamentos indiretos, via leis de incentivo, caíram drasticamente. Mas, na prática, não sentimos tanto efeito disso na produção por haver os recursos do fundo setorial - observa Leonardo Edde, vice-presidente do Sicav. - Nossa crise é de participação de mercado do cinema nacional. Filmes americanos de grande orçamento estão tomando proporções gigantescas na exibição. Às vezes um único título chega a ocupar um terço das salas do País. Estamos discutindo o assunto com a Ancine.
Um dos gatilhos de expansão da produção veio com a Lei da TV Paga, de 2011, que estabeleceu cotas para a exibição de conteúdo nacional nos canais fechados. Daquele ano para 2015, o número de obras licenciadas para a TV por assinatura subiu de 761 ao ano para 3.600, segundo a Ancine.
Em 2014, segundo a pesquisa da Ancine, a TV paga foi responsável, pela primeira vez, por mais da metade, ou quase 52%, do valor adicionado pelo audiovisual à economia do País. A TV aberta representa fatia também robusta, de 41,5%. "Estamos produzindo muita coisa para TV, como 'Valentins', para o Gloob, que estreia em 2017 já com duas temporadas contratadas. É projeto de alta qualidade", explica Adilson Xavier, diretor-presidente da Zola, que tem ainda como sócios José Henrique Fonseca, Eduardo Pop e a atriz Cláudia Abreu, que atua no seriado, além de ser coautora da produção.
A Conspiração já registra crescimento de 20% este ano em produções para TV e Cinema. "Em publicidade, apesar da retração que o setor sofreu, conseguimos manter estabilidade. Nos últimos dois anos, investimos em processos, ganhando eficiência e multiplicando nossas áreas de atuação em cinco frentes: publicidade, conteúdo de marca, TV, cinema e digital", conta Renata Brandão, diretora presidente de negócios da Conspiração.

Brasil é o oitavo maior mercado em vídeo sob demanda do mundo

O fronte digital vem se abrindo como a nova via de crescimento do audiovisual. O Brasil já é o oitavo maior mercado em vídeo sob demanda no mundo, com uma estimativa de gerar US$ 352,3 milhões em receitas neste ano. Isso representa um mercado duas vezes maior que o mexicano ou com o triplo do tamanho do segmento argentino, aponta o estudo da Tendências.
A Agência Nacional do Cinema (Ancine) vai colocar uma notícia regulatória em consulta pública, ela explica por que motivos deve ser desenvolvida uma regulação para VoD no País e que balizadores seriam adotados para desenvolver esse mercado no Brasil. "É a nova fronteira para a expansão da indústria. Entre as hipóteses sobre a mesa estão garantir a segurança jurídica dos empresários que se dedicam ao segmento de vídeo sob demanda, revisar a estrutura tributária para que não seja um limitador à atividade, além de garantir isonomia à empresas brasileiras e internacionais no segmento, com visibilidade e preponderância para o conteúdo nacional", explica o presidente da Ancine, Manoel Rangel.
O Brasil, continua ele, já conta com 15 empresas atuando como plataformas de compartilhamento de conteúdo audiovisual. Nos últimos três anos, a Netflix, gigante do setor de VoD, dobrou o catálogo de conteúdo nacional oferecido ao público brasileiro, aponta pesquisa da Tendências. Em escala global, o Netflix vai investir US$ 6 bilhões em produção de conteúdo neste ano, três vezes mais que a HBO, que é a principal produtora de séries e filmes para a TV paga. A primeira série brasileira original do Netflix, "3%", estreia em novembro.
"A regulação é importante. O VoD é a próxima fronteira e ainda tem baixa penetração no Brasil, de apenas 11%. Mas, se houver um constrangimento regulatório, como uma tributação excessiva, pode reduzir a capacidade do mercado de produção, e acabar funcionando como um incentivo à pirataria no País. É preciso lembrar que o parque exibidor para cinema ainda é escasso. Quase metade da população do País vive em municípios que não têm cinema", alerta Castanheira, da MPA-AL.
Os avanços tecnológicos trazem outras oportunidades e desafios. Alexandre Rocha, sócio-diretor da Afinal Filmes, destaca que o Rio vem perdendo estrutura de pós-produção, principalmente devido à retração no segmento de publicidade. "A produção muda o perfil do mercado. O VoD vai transformar o audiovisual. Investimos em equipamentos de ponta, como um escâner de filmes em formato Super-8, usado para restauração e remasterização. Estamos escaneando filmes do Nelson Pereira dos Santos para o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque." 
Marco Eckart, presidente da Naymar e à frente da CiaRio, que reúne oito empresas de serviços e logística para o audiovisual, pondera que a demanda se mantém, mas há perdas em faturamento. "É preciso investir de forma contínua para atender a demanda do mercado. Nosso investimentos sobem 10% ao ano, o faturamento, contudo, avança perto de 7%. Nos últimos 12 meses, o faturamento encolheu 15%. Com a crise, a inflação pressiona o orçamento das produções, o que resulta em corte de gastos na hora de contratar equipamentos e logística."

Setor amplia ofertade empregos

Há vagas. O audiovisual é uma das poucas áreas que ampliam a oferta de emprego em plena recessão. Com a expansão das atividades, cresce a demanda por profissionais de diferentes perfis, de nível técnico a executivo. Entre 2007 e 2014, os empregos diretos no setor saltaram de 132 mil para 169 mil em todo o País, um aumento de 28%. Quando o recorte se abre aos indiretos, o avanço foi de 257 mil para 327,4 mil em sete anos, alta de 27%. Ou seja, para cada emprego gerado no audiovisual, há 1,94 gerado em outros setores da economia, aponta pesquisa da Tendências Consultoria, elaborada a pedido da Motion Picture Association América Latina (MPL-AL) e do Sindicato do Audiovisual (Sicav). O salário médio, em valores atualizados a 2016, subiu de R$ 2.890 para R$ 3.582.
"O setor cresceu de uma forma que o mercado não estava preparado. Todos os bons profissionais estão agendados para trabalho. E isso abre uma perspectiva de formação de novos talentos", conta Adilson Xavier, diretor-presidente da produtora carioca Zola. Ele mesmo é prova da abertura do audiovisual. Com quase 30 anos de carreira em publicidade, Xavier deixou a agência Giovanni DraftFCB (hoje FCB Brasil) em 2011. Passou uma temporada se requalificando, fez um curso de roteiro em Londres, entre outros.
"A expansão do setor aumenta a demanda por profissionais qualificados. É um processo de formalização, maior produção e investimento em qualidade. Há oportunidade para novos profissionais. Vemos movimentação entre as áreas do setor, como pessoas que trabalham para TV passando para o cinema, por exemplo", diz Leonardo Edde, vice-presidente do Sicav.
Para formar mão de obra para essa indústria, cresce a oferta de cursos de qualificação. No ano que vem, o Coppead/UFRJ terá, pela primeira vez, um curso em gestão de negócios para o setor de audiovisual. É resultado de parceria entre a Firjan e o Sicav. O Senac RJ registrou alta de 17% no número de alunos matriculados em cursos voltados para audiovisual neste ano na comparação com 2015.

Grandes grupos miram cidades menores

Mais de 60% das salas de cinema do País estão concentradas em municípios com mais de meio milhão de habitantes, sobretudo no eixo Rio-São Paulo. Aqueles com menos de 50 mil moradores tinham, em 2015, uma fatia de 1,4% do total de salas. O que vem acontecendo nos últimos cinco anos é um aumento das inaugurações nas cidades com 100 mil a 500 mil habitantes, que passaram de 66,9% com cinemas, em 2010, para 71,5%, em 2015. E vai rumo ao interior.
Mesmo grandes grupos estão trilhando este caminho. A Cinemark, por exemplo, uma das gigantes do setor, opera 606 salas de cinema em 81 complexos espalhados por 17 estados, além do Distrito Federal. É um salto sobre as 322 salas em 38 complexos que o grupo tinha no País 10 anos atrás. Há um ano, criou um novo modelo de negócio, com complexos menores para cidades de médio porte.
"Adequamos o modelo de cinema, mantendo a qualidade e o padrão de salas, para chegar a municípios de 200 mil habitantes. Neste caso, o complexo tem quatro salas, podendo crescer a seis. Nos instalados em capitais mais adensadas, são entre sete e oito", explica Marcelo Bertini, presidente da Cinemark no Brasil. "Vamos abrir o sexto complexo com o novo perfil em novembro, em Bragança Paulista. Em geral, chegamos em lugares onde somos o único cinema no único shopping." A companhia inaugurou 40 salas de cinema neste ano, contra 60 em 2015. A retração tem a ver com a crise econômica e com o freio na abertura de shoppings no País. Para Bertini, a oferta de cinemas ainda está abaixo do potencial.
Com 16 mil habitantes, a pequena Itapiranga, no Extremo-Oeste de Santa Catarina, vai ganhar uma sala de cinema em 2017. A inauguração do Cine Peperi vai levar a cidade ao posto de menor do País com uma sala em operação, segundo dados da Ancine. Baterá os outros únicos três municípios com menos de 20 mil moradores a contar com um cinema: Cesário Lage, em São Paulo, que tem 17 mil habitantes; o também catarinense Otacílio Costa, com 18 mil; e Remígio, na Paraíba, com 19 mil.
O cinema de Itapiranga será a segunda unidade da Rede Peperi. A primeira fica em São Miguel do Oeste, com população quase três vezes maior do que a da nova praça e que, em seis anos, já vendeu 100 mil ingressos. Adilson Baldissera, sócio-proprietário do grupo - que tem sete emissoras de rádio na região -, repete os passos dados pelo pai décadas atrás, que ajudou a abrir o antigo Cine Cacique. A sala, que tinha mil lugares, fechou há mais de duas décadas.
"A ideia do novo cinema surgiu quando fui construir um prédio para ser a sede das emissoras de rádio. Seriam cinco andares, com um auditório no térreo. Mas queria montar um espaço para a cidade, então decidi abrir o cinema. Diziam que eu era louco. Procurei a Arcoplex (rede de salas de cinema) para entender como funciona o negócio. Em outubro de 2010, inauguramos o Cine Peperi de São Miguel. A Arcoplex cuida da programação", conta ele. Baldissera bancou a construção do edifício. Parte dos recursos usados para equipar a sala de cinema foi captada por meio da Lei Rouanet. Em 2015, o Cine Peperi de São Miguel vendeu 40 mil ingressos (R$ 529 mil) e, neste ano, 34 mil bilhetes (R$ 428 mil).

Sem artistas, CPI da Lei Rouanet perde força na Câmara

A decisão de abrir mão de convocar artistas que se beneficiaram da lei de incentivo à cultura fez com que a CPI da Lei Rouanet - a única comissão parlamentar de inquérito atualmente em curso na Câmara dos Deputados - perdesse força política. Vista inicialmente como "caça às bruxas" ao governo do PT, pois chamaria personalidades ligadas aos mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, a comissão instalada em setembro arrefeceu.
A expectativa, tanto da base quanto da oposição, é de que se torne uma espécie de "caixa de sugestões" para modificação de pontos considerados falhos da legislação. A CPI espera o compartilhamento da íntegra do inquérito da Polícia Federal que resultou, em junho na Operação Boca Livre. À época foram cumpridos 37 mandados de busca e apreensão e 14 prisões temporárias relacionadas a fraudes na lei.
Segundo os investigadores, eventos corporativos, festas privadas, livros institucionais e até mesmo uma festa de casamento foram custeados com recursos captados de empresas mediante renúncia fiscal. A PF, porém, ainda não respondeu ao pedido do presidente da comissão, deputado Alberto Fraga (DEM-DF).
Enquanto isso não ocorre, a CPI tenta avançar ouvindo ex-ministros da Cultura. Mas, dos quatro convidados - Gilberto Gil, Juca Ferreira, Ana de Hollanda e Marta Suplicy, todos da gestão petista -, apenas a terceira aceitou participar espontaneamente e compareceu à audiência pública na terça-feira. "Foi a nossa primeira decepção", diz Fraga.
Gil pediu desculpas pela ausência, pois passa por tratamento de saúde, já Ferreira estava em viagem à Colômbia e Marta alegou incompatibilidade de agenda. O deputado decidiu, então, partir para a convocação, a exemplo do que fez com os envolvidos na Boca Livre. Dessa forma, a presença dos ex-ministros se torna obrigatória, sob o risco de incidirem em crime de desobediência, uma vez que a CPI tem poder de polícia.
Sancionada no governo Collor, a Lei Rouanet está em vigor desde 1991. No entanto, Fraga decidiu convidar apenas titulares que ocuparam a pasta da Cultura na última década. "É natural criarmos um lapso temporal, mas, se surgir algum fato relevante fora desse período, a gente também vai investigar", diz, negando que a CPI tenha o objetivo de "satanizar" o PT.
O presidente da comissão admitiu que, quando chegar a hora de convocar os artistas, vai ficar "muito desconfiado" caso o partido opte por obstruir o andamento da comissão. "Se isso acontecer, é porque não querem que investigue", afirmou.
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