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Porto Alegre, quinta-feira, 29 de setembro de 2016. Atualizado às 21h38.

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Hélio Nascimento

Cinema

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Notícia da edição impressa de 30/09/2016. Alterada em 29/09 às 17h46min

Clássicos homenageados

Hélio Nascimento
Vez por outra, a universalidade do cinema é ressaltada e claramente exposta, para desespero dos obtusos e dos xenófobos. Humberto Mauro, que, para muitos, é o pai de nosso cinema, foi levado à ação por ter conhecido um filme de Henry King, David, o caçula, realizado em 1921.
A narrativa cinematográfica foi criada por David Griffith em Nascimento de uma nação e Intolerância, em 1915 e 1916, filmes que foram meticulosamente estudados por Serguei Eisenstein, antes de iniciar sua filmografia, em 1924, com A greve. E não haveria O ano passado em Marienbad, de Alain Resnais, se não existisse Vertigo, de Alfred Hitchcock, realizado três anos antes, em 1958. O novo Sete homens e um destino, de Antoine Fuqua, é mais um título a evidenciar tal constatação. O diretor não é um mestre como os citados, mas é daqueles realizadores que conhecem o ofício e sabem fazer uma história ser transformada em imagens.
Seu novo filme, no entanto, se destaca também por ser refilmagem de um clássico, que já havia sido a refilmagem de outro clássico. A origem de tudo é um filme japonês, Os sete samurais, realizado por Akira Kurosawa em 1954. Tal filme, que alcançou repercussão mundial tanto entre críticos quanto nas bilheterias, foi refilmado em 1960 por John Sturges, com o mesmo título do filme de agora. Fuqua, portanto, correu um grande risco: o de ser confrontado com dois clássicos. Um duelo difícil de ser vencido. E como não tem a agilidade e a pontaria dos mestres, preferiu, em vez do combate, um tom de homenagem, inclusive pela citação da partitura do filme americano, escrita por Elmer Bernstein, nos créditos finais.
O novo Sete homens e um destino também permite uma meditação sobre a questão da refilmagem. Poucos foram os que, além de Sturges, retomando o tema de outros filmes, conseguiram realizar algo marcante. Um deles foi Hitchcock, que ao fazer outra vez O homem que sabia demais, em 1956, superou amplamente a primeira versão, realizada por ele próprio em 1934. O outro - e talvez o exemplo maior - foi Joseph L. Mankiewicz, que, ao realizar, em 1951, Dizem que é pecado, alcançou o nível da obra-prima ao retomar o tema de um filme do alemão Curt Goetz, Frauenartz Dr. Praetorius, do ano anterior. De um modo geral, no entanto, as refilmagens não conseguem equiparar-se ao original. Surges e seus roteiristas ao retomarem ao tema abordado por Kurosawa acertaram plenamente ao perceberem que o filme japonês devia algo ao western americano. Kurosawa, como se sabe, era um fascinado pela cultura ocidental. Tinha por ela um interesse amplo, que ia de Shakespeare aos filmes policiais americanos.
E, por outro lado, seu cinema fascinou George Lucas e está entre as inspirações de Guerra nas estrelas, que deve alguns lances de humor a um dos clássicos do cineasta nipônico, Fortaleza escondida. E há também uma terceira influência no filme de Fuqua: a do western italiano, principalmente de Sérgio Leone, que começou com uma trilogia interpretada por Clint Eastwood e concluiu sua filmografia com uma obra-prima do gênero policial: Era uma vez na América.
As origens do novo filme de Fuqua são as principais responsáveis pelo interesse que tal trabalho agora desperta. Trata-se de um bom western, pertencente a um gênero que pode não ocupar o espaço que tinha no passado, mas que costuma reaparecer esporadicamente. Enquanto não surge um filme digno dos clássicos, trabalhos como este possuem o mérito de colocar na tela os temas e as características do gênero.
E podem, como no caso de Django Livre, de Quentin Tarantino, outra refilmagem superior ao modelo e no qual semelhanças culturais eram evidentes, manter vivas as linhas tradicionais do gênero: a implementação da justiça diante de deformações causadas pela ambição e movidas por extrema violência. Uma comunidade ameaçada pela corrupção e a desumanidade é novamente defendida não por leis criadas pelo próprio sistema, mas pela ação de um grupo no qual marginalizados exercem papel fundamental. Esta homenagem a dois clássicos do cinema vale por ressaltar o fato de que certas obras podem ser diferentes na forma, mas são universais em sua defesa da dignidade.
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