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Porto Alegre, terça-feira, 30 de agosto de 2016. Atualizado às 23h57.

Jornal do Comércio

Opinião

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Artigo

Notícia da edição impressa de 31/08/2016. Alterada em 30/08 às 20h50min

Um Getulio apaixonado

João Gomes Mariante
Getulio Vargas, ao longo de sua trajetória existencial, legou-nos surpresas, tanto no âmbito político como no setor da vida interior, as quais foram selecionadas e, não poucas vezes, encerraram um critério de sigilo. Uma delas foi sua autobiografia no célebre Diário, editado pela Fundação Getulio Vargas, volume II, pág. 118, em que confessa: "Estou inquieto e perturbado com a presença daquela que me despertou um sentimento mais forte do que poderia esperar". Em outro tópico, Getulio, referindo-se ao caso emocional, aceita a condição de estar preso a uma "paixão alucinante". Tem-se a impressão de que tal posição causou-lhe um sério trauma psíquico, atingindo um ser amoldado à conduta burguesa de uma sociedade patriarcal e monogâmica. Especialmente, ele foi impactado pelos danos eleitorais consequentes, circunstância essa, de seu íntimo e permanente desvelo.
A aventura amorosa, a paixão ardente, "alucinante e alucinógena" revestiu-se de aspectos dúbios e de arriscadas consequências, que sua elevada sagacidade previra como ruptura da situação matrimonial, dano equiparável a uma condição que poderia levá-lo a ser impedido de governar. Por investir contra a moral, a decência e a compostura de um comandante de Estado, esses acontecimentos serviriam de motivo para torná-lo vítima de um impeachment, algo que Getulio jamais aceitaria.
Quanto ao patológico apelo ao governo, do qual (e dos quais) só sairia morto (Do Catete, só sairei morto", Getúlio Vargas), o caso da "bem-amada" poderá ter sido o estopim de uma renúncia, ou a antecipação de um suicídio. No âmago de sua incompreensível personalidade, talvez vigorasse uma questão: O que o instinto pede, a razão impede. Durante o affaire amoroso, Getulio dá evidentes sinais de alucinar a imagem da "bem-amada" (como ele a definia), ao recorrer a uma alucinação hipnagógica, semelhante ao sonho, e que ocorre ao despertar e ao adormecer. A dolorosa e gratificante experiência revelou um Getulio excepcional, capaz de amar e sentir, e de instituir uma coalizão entre um superego cruel e um ego temerário e alucinado.
Psicanalista e jornalista
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