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Porto Alegre, terça-feira, 09 de agosto de 2016. Atualizado às 11h08.

Jornal do Comércio

Economia

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ARTIGO

Notícia da edição impressa de 09/08/2016. Alterada em 09/08 às 11h08min

Opinião econômica: BS é um otimista

JONATHAN HECKLER/ARQUIVO/JC
O pequeno industrial BS, iniciais fictícias, recusou-se a vender a sua fábrica no fim do ano passado. Ele é desses brasileiros nacionalistas, que vibra com conquistas nos negócios, nos esportes e em qualquer outra área. Está, por exemplo, empolgado com os Jogos Olímpicos do Rio.
BS poderia ter embolsado R$ 10 milhões à vista, limpos, e saído do difícil mercado de peças de aço. Mas ele preferiu ficar.
Dias atrás, olhos arregalados, BS leu reportagem que mostrava os resultados dos fundos de investimentos no primeiro semestre. Alguns fundos multimercado, aqueles que aplicam os recursos captados em vários segmentos, seja de renda fixa ou variável, renderam até 50% nos primeiros seis meses do ano.
BS fez rapidamente o cálculo de cabeça. Se tivesse vendido a fábrica pelos R$ 10 milhões que lhe foram oferecidos e aplicado o dinheiro num fundo desses, teria ganho uns R$ 5 milhões no semestre, sem ter de discutir preços com fornecedores e clientes, sem burocracias contábeis e tributárias, sem problemas trabalhistas, sem ter de suplicar por boa vontade nos bancos credores. Mesmo que tivesse sido rigorosamente conservador e aplicado em um fundo de renda fixa, teria ganho pelo menos uns R$ 600 mil no semestre, sem nenhum esforço ou desgaste.
BS ficou meio deprimido com essas contas e esses pensamentos. No semestre, o faturamento de sua fábrica caiu cerca de 30% em relação ao mesmo período do ano passado e quase 50% na comparação com 2014. Em dois anos, seu negócio virou metade do que era. Está quase sem caixa, endividado, paga taxas de mais de 40% ao ano por empréstimos de capital de giro e, no semestre passado, operou com prejuízo.
"Como é possível ganhar tanto dinheiro com investimentos financeiros num momento de crise tão grave e recessão tão profunda?", pensa BS, batendo com as costas da mão na página da jornal. E reconhece que talvez tenha cometido um erro, quatro anos atrás, quando usou mais de R$ 1 milhão do caixa da empresa para comprar uma máquina nova e aumentar a produção. Bem que a moça do financeiro, meio de brincadeira, havia alertado: "Se o dinheiro fosse meu, punha tudo no Tesouro Direto".
Mas BS é teimoso. Vive dizendo que o futuro do País está na produção, e não na especulação financeira. "Veja o que acontece na agricultura, estamos produzindo e alimentando o mundo", diz. Ele não sabe se, a esta altura, ainda vão lhe fazer oferta de compra de sua fábrica, mas, se algum interessado aparecer, vai recursar de novo.
Outro dia, ele leu na imprensa que a Fiat do Brasil tem falta de esferas de rolimãs na linha de montagem de automóveis. Algumas fábricas fecharam no País, e a montadora tem de importar da Alemanha contêineres inteiros com essas bolinhas de aço, um produto muito simples, que pode ser produzido em qualquer esquina e que faz BS lembrar do tempo em que, menino, descia ladeiras da zona Norte de São Paulo sentado em seu carrinho de rolimã.
BS tem certeza de que as coisas não vão continuar como estão e, mais cedo ou mais tarde, a maré vai virar para o lado dos que investem para produzir e criar empregos. BS é um otimista.
Diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional e presidente do conselho de administração da empresa
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