Comentar

Seu comentário está sujeito a moderação. Não serão aceitos comentários com ofensas pessoais, bem como usar o espaço para divulgar produtos, sites e serviços. Para sua segurança serão bloqueados comentários com números de telefone e e-mail.

500 caracteres restantes
Corrigir

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, quinta-feira, 04 de agosto de 2016. Atualizado às 20h07.

Jornal do Comércio

Colunas

COMENTAR | CORRIGIR
Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 05/08/2016. Alterada em 04/08 às 17h31min

Um sobrevivente

Há um tipo de cinema que acredita na contemplação da realidade através de planos cuja duração permite ao espectador compor ele próprio a montagem da cena. Determinada imagem permanece na tela o tempo suficiente para uma visão que permite que todos os elementos sejam organizados de forma a possibilitar a compreensão do que está sendo encenado. É o cinema clássico por excelência e que até hoje é praticado pelos que, numa fase em que os efeitos especiais estão tomando o lugar dos criadores, ainda resistem a modismos e imposições. O caso de Paul Greengrass, o realizador de Jason Bourne, que atualmente está sendo lançado em centenas de cidades do mundo, merece atenção não pelo fato de o diretor optar pelo plano de curtíssima duração, mas por ele mostrar que é possível, através da valorização da montagem, criar uma atmosfera que termine por captar o espírito de uma época. Greengrass não é um simples narrador de aventuras. É só olhar sua obra passada para que seja confirmada tal afirmativa. Os conflitos na Irlanda do Norte, os atentados de 11 de setembro de 2001, a busca pelo petróleo e a pirataria moderna compõe um painel na qual técnicas de documentário se mesclam a encenações. Filmes como Domingo Sangrento, Voo 93, Zona verde e Capitão Phillips formam um painel no qual é impossível deixar de ver a configuração de uma época.
Greengrass é também o realizador de Supremacia Bourne e O ultimato Bourne, que foram antecedidos por A identidade Bourne, filme realizado por outro cineasta, Doug Liman, também adepto do plano curto e da narrativa trepidante, todos eles interpretados pelo ator Matt Damon, que agora volta ao papel depois que outro cineasta e outro intérprete não obtiveram sucesso com O legado Bourne. O personagem criado por Robert Ludlum volta, portanto, à sua originalidade e num filme que tem méritos suficientes que permitem colocá-lo entre os que provam que o cinema de ação e aventura não é incompatível com narrativas que coloquem diante do espectador um quadro sobre uma época. Trabalhando a partir de um roteiro de Christopher Rouse, o realizador volta a tratar de temas contemporâneos. O personagem, como se sabe, é um agente da CIA que descobre, a partir de um determinado momento que está sendo manipulado pela agência, interessada em manter segredo absoluto sobre certas atividades. Trata-se, basicamente, de um conflito entre criador e criatura. E, quando esta se transforma numa ameaça, tal conflito passa a ser um combate revelador.
A técnica de Greengrass é primorosa. Ele evita sempre que possível o efeito artificial e procura ser o mais realista possível. Aproxima-se, assim, da reportagem ou das filmagens feitas de improviso durante os acontecimentos focalizados. A sequência desenrolada em Atenas, que foi filmada em outro local por motivos de segurança, mostra conflitos de rua mesclados a uma tentativa de assassinato do protagonista. Não se trata de uma novidade. Vários cineastas, antes, já realizaram sequências semelhantes, mas poucos conseguiram efeitos tão realistas como Greengrass. Mas o mais importante é o olhar do cineasta para um mundo no qual, como se fossem deuses modernos, os detentores do poder decidem o destino de seres humanos, enquanto vigiam todos os movimentos do indivíduo focalizado. Há mesmo, como nas epopeias, discussão entre os deuses sobre qual atitude a tomar. E enquanto a ação avança, o cineasta vai construindo uma imagem negativa do poder. Essencialmente, o que vemos é um símbolo da luta pela sobrevivência. Ex-agente, agora perseguido pelos chefes, o personagem sobrevive participando de lutas clandestinas, nas quais utiliza as técnicas aprendidas quando atuava de maneira oficial. A sequência inicial já clarifica a situação do protagonista. E o filme também mostra ao espectador as técnicas de vigilância e manipulação. Os agentes e seus alvos são acompanhados todo o tempo. Tudo é controlado e quase não há espaço para a individualidade. E a luta final não deixa de ser o resumo simbólico de uma tentativa de sufocar a ação criminosa e clandestina.
COMENTAR | CORRIGIR
Comentários
Seja o primeiro a comentar esta notícia