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Porto Alegre, domingo, 07 de agosto de 2016. Atualizado às 19h10.

Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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Com a palavra

Notícia da edição impressa de 08/08/2016. Alterada em 05/08 às 18h28min

Para a XP Investimentos, a crise ensina

Zeina Latif, economista chefe da XP Investimentos

Zeina Latif, economista chefe da XP Investimentos


FERNANDO AMSCHLINGER/DIVULGAÇÃO/JC
Marina Schmidt
Os tempos difíceis que muitos brasileiros enfrentam, e que reflete desarranjos políticos e econômicos do País, são, inquestionavelmente, preocupante. E é aludindo à crise que muitos têm fomentado que o período também abre oportunidades. O que nem sempre fica nítido é que essas oportunidades vão além dos novos negócios que estão surgindo para contornar a recessão, e se refletem em um novo olhar sobre o País, algo que tende a conduzir a Nação para a renovação. "O que estamos vendo é uma mudança na sociedade, que deseja maior participação política, está mais crítica, que vai às ruas e que está pressionando para que o País faça ajustes", avalia a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif. Cabe aos líderes brasileiros e às instituições democráticas aprender com os equívocos e contemplar as demandas de uma País que "tem pressa em crescer e em melhorar a distribuição de renda".
JC Empresas & Negócios - Quem hoje, aos 30 anos de idade, está assumindo posições de liderança, chefia ou começando a conduzir uma empresa, se depara com uma situação confusa: viveu, recentemente, o boom do consumo, viu a ascensão da classe média e crescimento alto do PIB, mas, de repente, tudo mudou. Agora, vive o desafio de enfrentar uma dura recessão. Qual é a perspectiva para esses jovens?
Zeina Latif - Essas são pessoas que pegaram o Brasil já mais arrumado e mais rico, e agora estão lidando com o tombo, com o susto e as consequências do retrocesso. Isso é uma decepção muito grande para o jovem, certamente. Agora, por outro lado eu vejo o seguinte: primeiro que o Brasil tem muito trabalha ser feito, isso significa que há um grande espaço para o empreendedorismo. É um País em que não há mais como se manter a mesma participação estatal. Todos esses empreendedores vão enxergar que não dá para ir para Brasília pedir apoio para nada e que o que dá para fazer é pressionar para arrumar a casa, pressionar para melhorar o ambiente de negócios e para reduzir a complexidade tributária, tornar o Brasil um país no qual o empresário tem mais chance de sobreviver. Essa agenda é essencial para os empreendedores e para o setor produtivo. Hoje, o Brasil é um país com duas realidades distintas. Temos o velho Brasil, daquela manufatura tradicional, que, nos últimos anos, só fez ir para Brasília pedir alguma desoneração, subvenção, proteção ou crédito. Esse é justamente o setor que está frágil. Tem um outro Brasil que não quer proteção do governo, mas um país que funcione melhor, com um Estado que atrapalhe menos e que gere oportunidades de crescimento. Acho que é por aí que a gente tem que crescer, buscando uma agenda de cunho mais liberal em que as demandas da sociedade e do setor produtivo não sejam para subsídios e créditos, mas para melhorar o ambiente regulatório, reduzir a insegurança jurídica do País, os custos trabalhistas, a intervenção do Estado em negociações entre partes privadas.
Empresas & Negócios - Qual seria o papel do Estado nesse contexto?
Zeina - O ideal é que ele se dedique às áreas em que deve se dedicar, como cuidar dos pobres, resolver distorções da economia, fazer infraestrutura em setores para os quais o segmento privado não vai. Tudo isso que eu estou falando é o seguinte: se por um lado há uma decepção com o retrocesso, por outro, essa é uma fonte de pressão para avançarmos na agenda econômica. E eu vejo amadurecimento da sociedade. Observo grupos de empresários e empreendedores com essa visão mais liberal da economia. Então, não é só má notícia. Temos um caminho importante a percorrer, e o Brasil tem muita oportunidade para oferecer. É uma questão de aceitarmos a forma de atuação do Estado.
Empresas & Negócios - Parece que o País está carente de lideranças políticas com esse olhar e que consigam equilibrar todas as necessidades da sociedade brasileira. Alguém que se destaque, no sentido do que você mencionou, que contrarie o velho discurso?
Zeina - Há dois pontos a observar. O primeiro é que já estamos tendo uma renovação da política - obviamente que a Lava Jato também acelera esse processo. Mas vão aparecer lideranças. Não existe vácuo na política. O que a gente não sabe é qual é a qualidade dessas lideranças. O que eu quero dizer com qualidade é que tenham uma visão de País, que aponte para os problemas, mas também indique as saídas, e ouvindo a sociedade, não de forma populista, ouvindo e entendendo as demandas. Isso eu acho que naturalmente vai acontecer. Hoje, não tem liderança, mas até 2018 eu acho que vai aparecer. O que temos que ver é que para a classe política conseguir ter uma participação importante e contribuir com esse processo é importante também a qualidade das instituições democráticas (imprensa, organizações da sociedade civil, funcionamento dos partidos). Se temos uma sociedade mais exigente, com instituições que estão levando os anseios dessa sociedade, fica muito mais fácil termos líderes de qualidade. Porque o diálogo é permeado por essas instituições.
Empresas & Negócios - Essa liderança pode vir de dentro do governo Temer ou tende a ser uma voz dissonante?
Zeina - A eleição de 2018 tende a ser bastante competitiva, podem aparecer novos nomes. Mas eu acho que é razoável que nos próximos dois anos a gente tenha lideranças surgindo, pelo próprio reflexo da transformação que estamos vendo na sociedade.
Empresas & Negócios - Como avançar em um contexto de austeridade e paralisação de entes da federação que não conseguem investir em infraestrutura?
Zeina - A indisponibilidade de recursos diante da demanda por serviços público força o aumento da participação do setor privado. Eu não acho que a sociedade é tão preconceituosa em relação a esse tema, sinto que o que falta é diálogo, explicar, e as instituições democráticas têm esse papel também. E não se trata apenas de o dinheiro ter acabado, que dá um senso de urgência a questão, mas é também porque o setor privado, grosso modo, faz melhor do que o setor público, é mais eficiente. A gente fez políticas de tremendo intervencionismo estatal nos últimos anos, os bancos públicos, hoje, são maiores do que os privados. Isso trouxe crescimento? Não, trouxe crise. É uma fórmula que fracassou.
Empresas & Negócios - O que o investidor estrangeiro espera do País neste momento?
Zeina - Primeira coisa, temos que arrumar a macroeconomia, porque, se você não sabe para onde vai câmbio e a inflação, não se consegue investimento nenhum. Isso é pedra fundamental. É preciso melhorar o ambiente regulatório, institucional e reduzir inseguranças jurídicas, porque investimentos de longo prazo depende desse tipo de sinalização. O Brasil, comparando com os pares, parece mais confuso. Temos muitas regras tentando detalhar vários elementos, mas ao mesmo tempo com lacunas que geram interpretações dúbias. Percebemos, muitas vezes, projetos de investidores estrangeiros no Brasil, que estão interessados em fazer uma planta, mas, por conta de uma insegurança jurídica, desistem. Então, tem uma coisa inicial, que é a macroeconomia, para pelo menos não inviabilizar, mas para, de fato, estimular o investimento de longo prazo é outra agenda, é de uma agenda microeconômica que o País precisa. Nos momentos em que evoluímos na questão microeconômica e começamos a resolver o custo Brasil em alguns mercados, a reação foi muito positiva e rápida.
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