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Porto Alegre, domingo, 24 de julho de 2016. Atualizado às 21h24.

Jornal do Comércio

Política

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Entrevista especial

Notícia da edição impressa de 25/07/2016. Alterada em 25/07 às 01h22min

Freire diz que Maia devolverá respeito ao Legislativo

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Deputado opina que eleição de Maia foi uma grande vitória de Temer


fotos: MARCO QUINTANA/JC
Juliana Mastrascusa, especial para o JC
Para o deputado federal e presidente nacional do PPS, Roberto Freire, a vitória de Rodrigo Maia (DEM-RJ), nome apoiado pela sigla, no confronto com Rogério Rosso (PSD-DF), preferido pelo ex-presidente Eduardo Cunha (PMDB-RJ), abre uma caminhada para a "sensatez política" no Legislativo. "Devolve ao Poder Legislativo o respeito que é importante, coisa que você tinha muita dificuldade anteriormente, pela presidência do Eduardo Cunha, réu no STF (Supremo Tribunal Federal), alguém que a sociedade repudiava", afirma.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Freire defendeu o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) e elogiou o governo interino de Michel Temer (PMDB). O deputado avaliou o processo de cassação de Cunha, que, na sua opinião, está próximo do fim, com o afastamento definitivo do peemedebista da Câmara.
Freire também comentou as eleições municipais de 2016 em Porto Alegre e em outras capitais, e sustentou o paradoxo brasileiro para o pleito de 2018. De um lado, a crescente participação política da população; e de outro, uma rejeição aos partidos.
Jornal do Comércio - Rodrigo Maia foi um candidato, desde o início, apoiado pelo PPS. O que significou para a Câmara a sua vitória?
Roberto Freire - A eleição do Rodrigo Maia e, logo no dia subsequente, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) ter decidido levar ao plenário a votação do parecer do Conselho de Ética pedindo a cassação do Eduardo Cunha são passos que talvez iniciem uma marcha de sensatez na política. Já tinham passos anteriores, como o início do processo de impeachment, ainda não concluído. Com a posse de Temer, você começou a ter no País uma certa correção de rumos. Despertou uma confiança da sociedade, de que poderíamos enfrentar a crise econômica, a crise política, a crise moral. Essa marcha, que pode ser da sensatez, nitidamente tem no Rodrigo Maia um momento muito significativo, porque você devolve ao Poder Legislativo o respeito, que é importante, coisa que você tinha muita dificuldade anteriormente, pela presidência do Eduardo Cunha, réu no STF, alguém que a sociedade repudiava. O STF deu um primeiro passo, até de forma excepcional, afastando do mandato, mas infelizmente o interino (Waldir Maranhão, PP-MA) era completamente desqualificado para o exercício da função.
JC - No fim, Maia acabou tendo o voto de alguns representantes do PT e do PCdoB, que o chamam de golpista, como avalia isso?
Freire - Isso é a demonstração de como essa narrativa do golpe é uma estupidez. Fiz questão de dizer, eles todos, em sua maioria, participaram junto conosco do impeachment de (Fernando) Collor, e não era golpe, agora é? É uma narrativa que vinha crescendo dentro do PT, e hoje perdeu, porque alguns petistas votaram nesse "golpista", entre aspas. Por quê? Porque viram que a recuperação do Poder Legislativo, e quem for democrata efetivamente tem que lutar por isso, não pode ficar nessa política equivocada.
JC - Eduardo Cunha ainda possui poder no jogo político da Câmara?
Freire - Talvez uma pequena tropa de choque, mas muito pequena. Você pode perceber essa perda de poder dele analisando a tramitação do processo de cassação por falta de decoro no Conselho de Ética. Em momentos, parecia que ele iria impedir o processo. Ele criava obstáculos, até com chances de vitória. Quando conseguimos ter a sessão de julgar o pedido, não se tinha muita certeza se iríamos ganhar ou não. Com o voto da Tia Eron (PRB-BA), apareceu outro voto que era tido como do Eduardo Cunha, ali foi o grande momento da definição. A partir dali, ele recorreu, tentando reverter e procrastinar. Procrastinou pouco, e não reverteu. A presença dele nessa discussão da presidência da casa foi muito pequena. Quando Cunha liderou, como presidente, o processo de impeachment, aprovando a tramitação, parecia que ele tinha uma força muito grande, mas a força era o impeachment contra a Dilma, não era ele. A cassação do Cunha está próxima, é só designar o dia para se votar em plenário. Não tenha dúvida, ele será cassado.
JC - A crise política influenciou os trabalhos da Câmara. As votações devem voltar com uma maior intensidade?
Freire - A Câmara representou o caos político instalado no governo. Dilma tinha uma ampla maioria na base de sustentação, e não conseguia, politicamente, articular coisa alguma. Sofria derrotas, algumas vezes ganhava. A Câmara tem uma dificuldade com a política brasileira, o processo da Lava Jato, o envolvimento de inúmeros parlamentares. No governo do PT, nos tempos de (Luiz Inácio) Lula (da Silva, PT), você teve a transformação da corrupção, que sempre existiu na política brasileira, em algo sistemático, organizado. Um sinal de amadurecimento é você ter uma Câmara e um Senado com problemas graves, mas funcionando. Em um momento, os dois presidentes das casas do Poder Legislativo foram denunciados no STF, e, assim mesmo, a democracia funcionando. Vivi o período da ditadura militar. Em outra época, você já teria tido intervenção militar. O caos seria a regra. E nós estamos lutando pelo parlamentarismo. Porque, se fôssemos parlamentaristas, já tínhamos, há muito tempo, resolvido essa crise, poderíamos até estar vivendo outra, mas sabendo que institucionalmente poderíamos resolver com a maior tranquilidade.
JC - O senhor afirmou, no Twitter, que a vitória do Maia representava uma consolidação do impeachment. Dilma não tem mais chances de voltar ao cargo?
Freire - Não, isso seria o caos. A Dilma é tão desavisada que hoje fica querendo dizer que irá adotar a política de Temer. Isso é uma brincadeira, acho que nem Lula mais leva ela a sério, mas por outros motivos. Porque politicamente ela não merece nenhum crédito. A vitória do Maia foi uma grande vitória do Temer. Um segundo turno com dois candidatos, ambos da base de sustentação do governo, talvez representando forças políticas distintas. Rodrigo Maia, candidato das forças chamadas de a velha oposição ao governo Dilma; e o Rosso; representando a neo-oposição, a partir do momento que começou a se discutir o impeachment. O interessante nesse processo, e até uma deslealdade com o Temer, foi o PMDB, que lançou um candidato que ajudou as forças de oposição atual, a neo-oposição ao Temer, no caso o PT, para se rearticular em uma candidatura contra o Temer, que era o Marcelo Castro (PMDB-PI). Não conseguiram se afirmar, e o que passou para o segundo turno foi a força da base de sustentação do governo interino. Em toda luta do impeachment, quem era a favor da Dilma tentou desesperadamente criar o Cunha como o grande adversário, como se quem fosse a favor do impeachment fosse a favor de Cunha. Tentaram essa narrativa o tempo todo. Com a vitória do Maia, isso deixou de existir. Criaram toda essa bobagem de fora Cunha, como se isso fosse o grande problema nacional. Mas acabou essa narrativa, então fortalece o impeachment. Você não vai resolver a crise econômica, a crise fiscal do dia para noite. Enquanto isso não vem, evidente que o governo tem certas fragilidades. Não é um governo que vem com toda a força, com todo o apoio.
JC - As investigações contra a corrupção derrubaram alguns ministros do governo Temer. Como o senhor avalia esse início de gestão?
Freire - É preciso entender que o PMDB era governo Dilma como foi governo Lula em parte. Temer foi eleito com Dilma, eu não posso escolher um presidente a partir do impeachment, a partir do impeachment assume o vice. Vários partidos que votaram pelo impeachment estiveram lá e foram coadjuvantes de todo esse processo. Não estamos vivendo uma ruptura em termos de governo. Institucionalmente, é um novo governo, mas que tem a ver com o governo anterior. Tem uma diferença que as pessoas não querem levar em consideração. Os ministros no governo Temer, quando são denunciados, e são denunciados com certa gravidade, saem. No governo Dilma, quem não era ministro e foi denunciado, ela chamou para ser ministro, como é o caso do Lula.
JC - Qual a sua avaliação do momento do PT?
Freire - Essa crise vem se desdobrando há muito tempo, era anunciada desde a eleição da Dilma. Foi uma eleição em cima do estelionato eleitoral, da mentira, do uso abusivo do medo. Aqui, ninguém anda pela periferia gaúcha dizendo que vão fechar o Bolsa Família, e isso tem uma repercussão significativa do ponto de vista eleitoral. No Nordeste, tem. Não foi por acaso que o Temer foi dar um aumento para o Bolsa Família e deu maior do que Dilma tinha prometido. Isso é uma forma que ele politicamente usou. Porto Alegre é uma cidade com uma presença de uma esquerda muito grande, e nós estamos sofrendo um processo de crítica muito severa, enxovalhamento da esquerda brasileira, e tudo isso fruto da ação do PT, vinculado com a corrupção. Tudo que é de esquerda é bandido, porque em geral, no Brasil, ser de esquerda é o PT. O PT se manteve no poder com o voto do atraso. Sou nordestino e sei o que é isso, voto que sustentava a ditadura. Esse voto que depois sustentou a oligarquia do PFL. O voto de esquerda acontece nas grandes cidades, é o voto urbano. E isso o PT não tem, porque, desde 2006, começou a perder nas grandes cidades. E hoje, cada vez mais, o que perderam de prefeitos e continuam perdendo é um fato. A esquerda pode ter cometido vários erros, eu venho do antigo PCB, mas nunca nos envolvemos com corrupção.
JC - Qual a sua perspectiva para o cenário da disputa presidencial de 2018?
Freire - Será um bom teste. Tem uma coisa muito paradoxal. Nunca a sociedade brasileira participou tanto da política quanto agora, nem mesmo na época das diretas, que foi um momento de grande mobilização popular. Em tese, também existe o aspecto de rejeitar a política. Manifestação sem partido político. Então é paradoxal, como é que isso vai se refletir nas eleições? A participação ou a rejeição? É algo que a gente vai testar. Quem participa de manifestações como essas que nós tivemos, depois dela,s nós não somos mais o que éramos antes. Não adianta ficar imaginando que o Brasil não mudou a sua consciência. Como vão reagir? Na política tradicional, nos partidos? Nós não sabemos.
JC - Quais as apostas do PPS nas eleições municipais de outubro deste ano?
Freire - O partido cresceu muito, vamos ter com chances de vitória duas capitais: São Luiz do Maranhão e Vitória. Aqui em Porto Alegre, teve uma pesquisa agora, é bom para conhecer as coisas, mas não significa que está nada resolvido. Estive conversando com a (deputada estadual) Any Ortiz, e ela faz uma avaliação correta. Primeiro, que ainda está muito distante; segundo, que tem muito recall. Tanto é que os dois primeiros (Luciana Genro, P-Sol; e Raul Pont, PT) foram candidatos muitas vezes. A candidata do P-Sol foi até candidata à presidente da República. O segundo já foi prefeito da Capital. Os outros são candidatos novos. Tem um vice-prefeito, mas não se compara recall de vice-prefeito com de quem foi prefeito. O PPS ainda está analisando qual a aliança deve ser feita, até porque não vamos disputar a prefeitura com candidato próprio, e vamos ter que priorizar a eleição proporcional para vereadores.
JC - O que o PPS hoje ainda tem de essência do Partido Comunista?
Freire - Não tem muita coisa, porque o mundo mudou muito. O que tem são valores, de igualdade, fraternidade, trazendo alguns ensinamentos importantes, do trato da coisa pública. Do ponto de vista programático, pouca coisa, porque aquilo que a gente pensava construir a partir da classe operária, uma nova sociedade, hoje a gente não sabe nem qual é o futuro da classe operária, porque ela está se extinguindo. O que é o Uber se não uma nova realidade da prestação de serviços, por conta desse computador que nós andamos na mão?

Perfil

Nascido em 1942, no Recife (PE), Roberto João Pereira Freire começou sua vida política militando no Partido Comunista Brasileiro (PCB), ainda nos anos 1960, quando cursava Direito na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Pela legenda, foi candidato a presidente da República em 1989. Na época da ditadura, enfrentou o regime militar pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Sua primeira disputa foi para prefeitura de Olinda, em 1972, quando representou o MDB. Há mais de 30 anos ininterruptos, exerce cargos na política: um mandato como senador, um como deputado estadual e sete como deputado federal. Por 14 anos, foi escolhido pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) como um dos 100 protagonistas do Congresso Nacional. Atualmente, é presidente nacional do Partido Popular Socialista (PPS) e deputado federal pelo estado de São Paulo.
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