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Porto Alegre, quinta-feira, 28 de julho de 2016. Atualizado às 18h59.

Jornal do Comércio

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Notícia da edição impressa de 29/07/2016. Alterada em 28/07 às 17h04min

Sábato Magaldi: mais que crítico, apaixonado

Na semana passada, o Brasil perdeu o professor e crítico teatral Sábato Magaldi. Com a morte dele, já deixaram de exercer a crítica teatral - como ela deve ser entendida e praticada, com amor, paixão pelo teatro e respeito pelos elencos e troupes que realizam os espetáculos - Yan Michalski (1932-1990), Décio de Almeida Prado (1917-2000) e Bárbara Heliodora (1923-2015). Yan Michalski era polonês de origem. Radicou-se muito jovem no Brasil. Exerceu a crítica teatral principalmente no Jornal do Brasil, onde o conheci e de quem fui amigo, sobretudo nas jornadas contra a censura ditatorial dos anos 1960-1970. Michalski apoiou fortemente o teatro amador como uma alternativa de combate à censura policialesca; lecionou no Conservatório Nacional de Teatro; integrou júris variados de dramaturgia. Foi um incansável defensor da liberdade de criação.
Décio de Almeida Prado foi o criador, com Antonio Candido, na década de 1950, do Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo. Mas quem ali começou a publicar sua crítica teatral foi Sábato Magaldi. Formado pela Escola de Arte Dramática, Décio chegou a exercer a direção teatral, mas depois abandonou a prática dramática para se dedicar à crítica e à história do teatro, vindo a lecionar no Departamento de Arte Dramática da ECA-USP.
Bárbara Heliodora, que faleceu no ano passado, foi uma constante animadora da cena teatral, sobretudo no Rio de Janeiro, mas também se locomovendo pelo eixo Rio-São Paulo para trazer a seus leitores o trabalho que se desenvolvia nos dois principais centros dramáticos do País. Tradutora e especialista em Shakespeare, deixou inúmeras traduções de ensaios sobre o dramaturgo inglês.
O Rio de Janeiro perdeu, assim, seus dois grandes críticos teatrais. São Paulo não tinha mais Décio, e, agora, infelizmente, também não tem mais Sábato Magaldi. Conheci-o pessoalmente. Melhor, primeiro fui seu leitor entusiasmado e aplicado, como há dias confessava o diretor Luciano Alabarse. Depois, tive a oportunidade de conhecê-lo durante festivais de teatro que ocorriam em São Paulo, nos anos 1970. Por fim, sua relação com a escritora catarinense Edla van Steen manteve certa proximidade minha com ele. Aliás, há poucos dias, eu era inclusive solicitado a identificar uma fotografia que um grupo de escritores fizera à redação do Correio do Povo, sendo recebido por Breno Caldas. Lá estavam Edla e Sábato, além de João Antonio e tantos outros saudosos intelectuais brasileiros que, entre 1960 e 1990, marcaram indelevelmente a cultura brasileira.
Magaldi tem contribuições fantásticas ao teatro brasileiro. Sua categorização da dramaturgia de Nelson Rodrigues, por exemplo, quando a obra completa do dramaturgo pernambucano foi editada pela Nova Fronteira, tornou-se referencial. Magaldi era um aficcionado por Nelson Rodrigues e por isso dedicou ao escritor pelo menos dois grandes estudos, um dos quais sua tese de doutorado.
Mas Sábato era atento observador da cena dramática brasileira. Foi ele um dos primeiros a chamar a atenção para Jorge Andrade que, para mim, reparte os lauréis da grande dramaturgia brasileira do século XX com Nelson Rodrigues. E foi ele, ainda, quem defendeu a importância da dramaturgia de Plínio Marcos, quando, graças à censura, que o denominava de pornográfico, Plínio corria o risco de não ser devidamente valorizado.
Sábato Magaldi foi desses críticos que, para além da crítica, pensava o teatro enquanto fenômeno humano e cultural, profundamente importante para a sociedade. Não se limitava a assistir aos espetáculos. Era professor da ECA-USP e, graças a esta atividade, refletia bem além do comentário propiciado pelo sempre curto espaço do jornal em que escrevia. Desde o surgimento do suplemento do jornal O Estado de S. Paulo, assinou artigos naquele espaço. Depois, deslocou-se para as páginas diárias e, enfim, para o Jornal da Tarde, da mesma empresa. Sábato era, além do mais, um excelente contador de histórias, de uma simpatia e uma atenção extraordinárias para com o outro. Moderna dramaturgia brasileira e Nelson Rodrigues: Dramaturgia e encenação são obras definitivas para todos nós. Uso-as sempre em sala de aula e a elas retorno sempre que preciso pensar ou escrever a respeito dos dramaturgos brasileiros.
Com o desaparecimento dos quatro grandes de nossa crítica teatral, com quem poderão os dramaturgos brasileiros continuar dialogando?
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