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Porto Alegre, quinta-feira, 14 de julho de 2016. Atualizado às 19h27.

Jornal do Comércio

Colunas

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Notícia da edição impressa de 15/07/2016. Alterada em 14/07 às 15h25min

Dois conjuntos coreográficos - contrastes

Uma nova visita do Grupo Corpo traz em seu espetáculo - rotina de alguns anos - uma peça nova e o replay de um trabalho já conhecido. Neste caso, o contraste é forte e revelador. Levou-me um pouco de volta ao passado. Dos tempos de estreia, com Maria, Maria (1976), trilha sonora de Milton Nascimento, que assisti no Brasil e pude, depois, constatar a emoção que provocava na plateia francesa, em pleno palco do Théâtre National du Chaillot. O Corpo mostrou, na sequência, Expresso 2222, com música de Gilberto Gil, e, então, o grande salto: Missa do orfanato (1989), com música de Wolfgang Amadeus Mozart e a primeira coreografia de Rodrigo Pederneiras.
A nova peça, Dança sinfônica (2016) é explicitamente rememorativa. Com citações de obras anteriores, como Bach, ainda vem assinada por Rodrigo Pederneiras. Não há, contudo, repetições nostálgicas mas, sim, releituras. E a equipe continua exatamente a mesma, do coreógrafo ao cenógrafo e figurinista, Paulo Pederneiras e Freusa Zechmeister. Neste caso, a música é de Marco Antonio Pederneiras, composta exatamente para fazer uma espécie de rememoração ampla da história do grupo (daí a ideia da sinfônica, que implica quantidade de músicos, aqui metáfora do próprio grupo coreográfico, numa sonoridade que lembra bastante uma epopeia, como é, de fato, a própria história do conjunto, bastando lembrar-se que, num país como o Brasil, o Grupo Corpo comemora 40 anos e continua jovem, pujante, criativo e provocador). A peça é muito bonita, e contrasta com a própria coreografia, porque, enquanto a música sugere este tom narrativo e épico, a coreografia é nitidamente intimista, compondo-se, em geral, de movimentos com poucos bailarinos em cena, a cada movimento.
O contraste com Parabelo (1997) é mais do que evidente. A trilha sonora de Tom Zé e Zé Miguel Wisnik tem a marca da mescla entre a música afro-brasileira e a experimentação musical, tanto nos instrumentos quanto nas sonoridades. Quanto ao figurino, que, na peça mais recente, é comedido, quase neutro, aqui se apresenta fortemente colorido. Parabelo é uma peça um pouco mais longa que a mais nova obra do conjunto, o que também serve para promover uma indagação: a síntese que é, de fato, um dos objetivos mais presentes nas obras do grupo, aqui também se concretiza nesta perspectiva, como que a mostrar que as obras-primas não necessitam, obrigatoriamente, de grandes dimensões.
Por seu lado, a Companhia de Ballet da Cidade de Niterói veio pela primeira vez a Porto Alegre, apresentando-se no Theatro São Pedro. No programa, uma única peça, com cerca de uma hora de duração, Casa de Carii, alegadamente homenagem à cidade do Rio de Janeiro. Na região teriam vivido os índios carii, cujas malocas (ocas) estavam ali construídas. Daí que "carioca" significaria "casa (oca) dos carii".
A direção de Casa de Carii é de Pedro Pires e a coreografia vem assinada por Gleidson Vigne, que também responde pela cenografia, junto a Leo Celin e a trilha sonora, ao lado de Eduardo Prado. A ideia do espetáculo é boa: apresentar alguns tipos do universo carioca, como o malandro, as jovens que desfilam pela praia, os bêbados e o gari. É a partir do olhar desta figura que, de certo modo, se constrói a cena. Além dos bailarinos, no palco vazio, projetam-se, no telão do fundo, a partir de objetos que compõem o lixo que é recolhido, aqueles perfis da cidade que se tornaram seu cartão postal, como o Corcovado e o Pão de Açúcar.
Os gregos já sabiam, há muito, que a medida e o equilíbrio são fundamentais para a existência de uma verdadeira obra de arte. Mas alguns criadores contemporâneos teimam em ignorar este princípio. A trilha sonora, marcada por percussão, chega a se tornar irritante, em alguns momentos, não por ela mesma, mas pela repetição e a demasiada duração dos movimentos narrativos. Gleidson Vigne quis misturar a coreografia com dramaturgia, mas não conseguiu resolver a charada. É pena, porque o movimento final, que sobe num ritmo crescente, evidencia um conjunto de bailarinos afinado, competente e animado. Mas que fica sem função, de certo modo, na concepção equivocada da coreografia.
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