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Porto Alegre, domingo, 24 de julho de 2016. Atualizado às 18h04.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 22/07/2016. Alterada em 21/07 às 17h30min

Anjos e demônios

Os filmes anteriores de Anne Fontaine vistos antes deste Agnus Dei revelaram uma realizadora com aquelas qualidades que formam o perfil dos bons narradores cinematográficos. Como matei meu pai, Coco antes de Chanel e Gemma Bovery foram filmes dotados de méritos formais evidentes. Mas não há dúvida que o novo filme da cineasta os supera amplamente, principalmente por estar colocado bem acima do nível onde se situam os trabalhos bem narrados.
Reconstituindo fatos realmente ocorridos, a obra não se limita a encenar episódios verídicos ocorridos no passado, pois tem a ambição de formar um painel sobre temas que não perdem a atualidade e continuam sendo dilemas contemporâneos. Focalizando, como ponto de partida, o drama de freiras que sofreram, na Polônia, no período final da Segunda Guerra Mundial, violência sexual de militares do exército soviético que então avançava em direção à Alemanha, a cineasta procura falar ao espectador sobre os conflitos gerados pelo choque entre natureza e disciplina, impulso e ordem, afeto e ritual, rebeldia e obediência. E numa época em que a crença em valores que coloquem o ser humano no maior pedestal sofre abalos diversos, o filme ousa praticar o discurso humanista, mas sem cometer a ingenuidade de ocultar a agressividade capaz de causar danos irreparáveis, tanto materiais como também aqueles que podem apagar qualquer traço de esperança. Mas o filme consegue atingir aquela beleza emanada do gesto redentor, algo raro, por motivos óbvios, no cinema da atualidade, que ao refletir um tempo, tem se tornado, em muitos momentos, impiedoso e cruel.
O cinema se expressa pela imagem. Por ser uma arte que tem na realidade cênica sua base, não pode prescindir da palavra, mas é no cenário que encontra o elemento principal, aquele que define um mundo e clarifica a ação. As paisagens geladas que cercam as personagens materializam nas imagens a essência do mundo no qual a ação transcorre. Não é por acaso que a mais cruel das cenas do filme transcorre numa paisagem onde o gelo predomina e impera a desumanidade, gerada por um processo no qual a vida humana é sacrificada por uma distorção impiedosa e pela negação das forças da natureza. Neste trecho, que culmina diante do símbolo de outro sacrifício, o filme amplia sua visão e faz com que a violência assuma outra forma, distante daquela da fúria gerada pelo instinto reprimido, mas igualmente devastadora em sua ação. O bebê sacrificado é um símbolo claro da vida sendo extinta em nome de uma norma disciplinadora, de uma imposição criada pelo próprio ser humano. O mal, portanto, não é um elemento exterior: ele tem sua origem na busca de um mundo perfeito, essa missão que a muitos tem atraído, numa contradição que o filme procura explorar, ressaltando que por vezes deformações podem surgir de certezas não justificadas.
A mensagem humanista de Agnus Dei é colocada em cena por meio de uma técnica de antecipação aplicada de forma perfeita. Durante a ação a protagonista várias vezes encontra um grupo de crianças, certamente órfãos de guerra, que costumam brincar perto do hospital francês montado na região. Tais crianças não são apenas figurantes. Elas representam uma fase seguinte àquela que vemos no convento. Mais do que isso: são elas que possibilitam a solução encontrada no final, à qual não está ausente a constatação de que por vezes é necessária uma atitude afastada de regras de conduta. Então a vida humana é colocada em primeiro lugar. Fontaine deixa clara sua opção desde a cena inicial, quando uma das freiras se destaca por não cumprir o ritual. Os anjos vencem os demônios e o humanismo se impõe. E há outros achados durante a ação. A identificação da personagem francesa com as freiras polonesas é encenada através de outro momento em que a violência se impõe, mesmo que contida pela ação de um oficial. O mérito maior do filme é o de espalhar sinais positivos e negativos por espaços diversos, afastando-se assim do maniqueísmo sempre empobrecedor. E há também a perfeita utilização de obras musicais de diversos autores, além da partitura original de Grégoire Hetzel.
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Comentários
Djalmo souza 22/07/2016 21h34min
Prezado jornalistanSeu comentário possui a estatura da película.nExcelente.
Simone 22/07/2016 11h52min
Parabéns Hélio pela linda crônica!!