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Porto Alegre, quinta-feira, 23 de junho de 2016. Atualizado às 19h33.

Jornal do Comércio

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Jaime Cimenti

Livros

Notícia da edição impressa de 24/06/2016. Alterada em 23/06 às 18h45min

Cartas e quadrinhos de pai para filho

Obra reúne cartas enviadas de pai para filho durante três anos

Obra reúne cartas enviadas de pai para filho durante três anos


MORULA EDITORIAL /DIVULGAÇÃO/JC
O mundo segundo Jouralbo (Mórula Editorial, 276 páginas, R$ 44,00) de Jouralbo Sieber, Cynthia B. e Allan Sieber, reúne conteúdos de cartas que Jouralbo enviou para o filho Allan de 2012 a 2015. Allan convidou 42 desenhistas brasileiros, argentinos, um peruano e um francês para quadrinizar as 49 histórias. O próprio Allan assina uma das quadrinizações.
O ilustrador Jouralbo está com 86 anos e uma exposição do artista foi inaugurada no Museu do Trabalho (Rua dos Andradas, 230) dia 21 de junho, com óleos, artes finais e leiautes para a propaganda gaúcha, que ele produziu de 1950 a 1980. Ele ingressou na Editora Globo em 1945, aos 15 anos de idade, como aprendiz de desenhista. Em 2010 lançou seu primeiro livro de quadrinhos, autobiográfico. Ninguém me convidou.
O mundo segundo Jouralbo é composto de uma série de memórias, histórias, teorias e divagações, contidas em cartas enviadas ao filho Allan. Na apresentação, o cineasta Jorge Furtado escreve: "este livro é uma extraordinária criação artística, que ilumina, ensina, diverte, emociona, tudo que um livro faz de melhor, e encanta os olhos e a alma, como só o desenho faz. E como se isso não bastasse, é também um romance, que revela o interior do homem como só os romances fazem. É pouco? Pois este livro é, também, um documentário sobre um personagem, sua época, seu espaço de trabalho, seus amigos, sua fé, seus delírios, sua profissão. Arte, romance, documentário, este livro reúne um excepcional grupo de talentos, jovens e nem tão jovens desenhistas, para contar as histórias do incrível Jouralbo, uma prova viva da sabedoria de Jorge Luís Borges quando afirmou que "ninguém é impossível. Enfim, este livro é uma mistura de Raymond Carver, Daniel Clowes, John Fante, fotonovel e curso por correspondência do Instituto Universal Brasileiro. Não há outro igual, nem parecido, nunca vi".
Muito mais não é preciso dizer. Mas é bom lembrar o que escreveu o autor na apresentação: "Este livro é para a pessoa que tem fé em algo como a sua religião, o pensamento positivo, o magnetismo ou rituais de magia. Porque a coisa mais terrível e fantástica que você pensa ou possa imaginar, essa coisa existe".
É isso. Esse é o tom das histórias e quadrinhos que falam de infância, juventude, vida adulta, terceira idade, casamento de 60 anos, filhos, coisas simples e complicadas do cotidiano, enfim, as histórias falam de milhões de coisas e os leitores vão associá-las a outros milhões de coisas, como acontece com livros inspiradores ou piradores, como você quiser. O livro de Jouralbo é, tipo assim, milhões de livros, histórias e quadrinhos para viajar pelo infinito.

Lançamentos

  • Velázquez (WMF Martins Fontes, 212 páginas, tradução de Célia Euvaldo), ensaios do genial filósofo José Ortega y Gasset, apresenta uma visão sobre o domínio da linguagem por parte do artista, que marcou profundamente os movimentos artísticos do século XIX. Velázques era o "pintor dos pintores que pintava a pintura, o pintar", disse Gasset, sobre o clássico Las Meninas.
  •  Diccionario Historico Geographico e Estatístico do município de Alfredo Chaves - RS Indicador Coomercial e Profissional (Posenato Arte e Cultura, 125 páginas), fac-simile da obra de Gaspar Pimentel, traz histórias, mapas de cidades e dados de famílias como Toschi e Casarin. Alfredo Chaves hoje é Veranópolis. A obra fala também de Nova Bassano, Cotiporã, Nova Prata, Fagundes Varela e Vista Alegre.
  • A saga do lobisomem sob um sol de rachar (Artes e Ofícios, 96 páginas), do escritor, jornalista e tradutor Ernani Ssó, narrativa infantojuvenil, fala de Barbosinha, um bicho incomum, um lobisomem, mas de estirpe. Como homem é bacharel em direito, como lobo descende de alcateia nobre, europeia. De mais a mais, ele é doméstico, de estimação, praticamente um membro da família.

Biografando o Brasil

Que o Brasil não é fácil de entender todo mundo está careca de saber. O Tom Jobim falou que o Brasil não era para principiantes, o João Cabral de Melo Neto disse que o parto do Brasil é demorado e alguém disse que aqui até o passado é imprevisível. Pura verdade, no fundo esse Patropi é mais para ser amado que explicado, entendido ou racionalizado. Mestres como Sérgio Buarque de Hollanda, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Caio Prado Junior, Gilberto Freyre, Raymundo Faoro, Antônio Cândido e Euclides da Cunha escreveram livros seminais sobre o Brasil, tentando nos explicar. Deixaram boas contribuições, lições para o futuro, mas hoje, com esse País ainda mais múltiplo, confuso, dividido e mutante, quem se atreveria a explicar o que está acontecendo?
Ano passado, as professoras Lilia Moritz Schwarcz, da USP, e Heloisa Murgel Starling, da UFMG, lançaram um livrão (Companhia das Letras, 696 páginas) intitulado Brasil: uma biografia, que já mereceu seis reimpressões e deve se tornar um clássico no gênero. Baseada em amplo levantamento bibliográfico, pesquisas e estudos, a obra tem o grande mérito de não ser dogmática, determinista ou teleológica. As autoras apresentam nosso percurso histórico com suas ambiguidades, com suas luzes e sombras, vitórias e derrotas, avanços e recuos, trancos e barrancos bem brasileiros, enfim. Duas de nossas historiadoras contemporâneas mais notáveis enfrentaram o desafio de produzir algo novo, diferente das meras cronologias históricas, análises com recortes temáticos e ensaios interpretativos que temos costumeiramente por aí.
O Brasil é complexo, enorme, multifacetado, um personagem com mil nuances, que se transformou em cinco séculos - e hoje ainda se transforma, com muita rapidez - e que não comporta interpretações definitivas, fechadas e limitadoras.
Num momento crucial de nossa história social, política e econômica, na hora em que estamos pensando no Brasil que queremos, um livro como este vem a calhar. Estabelecendo ligações entre a grande História e os aspectos cotidianos da pequena história, da vida privada e do ambiente artístico e cultural, o livro, com sua linguagem que foge, ainda bem, ao ranço acadêmico, nos leva a narrativas políticas, sociais e econômicas mais abertas e democráticas.
A questão do escravismo está em destaque. O patrimonialismo, a violência, a questão indígena, a natureza mestiça de nossa cultura e o canibalismo cultural igualmente estão destacados na obra, como temas centrais, que, ao lado de reconhecer os avanços de nossa sociedade nesses 500 anos mostra, com grande sinceridade, os obstáculos para a construção de uma cidadania social, política e racial plena.
Se de um lado sabemos que não dá para contar toda a história do Brasil, é preciso, por outro, avançar em novas ideias, narrações e interpretações, para ir adiante, mesmo sabendo que não teremos explicações e respostas definitivas.

A propósito...

O livro e o Brasil são uma obra aberta. Conseguiremos consolidar a Nova República e os valores da Constituição cidadã de 1988? Conseguiremos manter um crescimento sustentável sem dilapidar nossas grandes riquezas naturais? No plano internacional, que papel teremos? Conseguiremos controlar a corrupção? Vamos conseguir separar, finalmente, o público do privado? Esses e outros desafios estão aí, depois de biografado este personagem Brasil. Com democracia, bons valores, harmonia, civilidade e senso coletivo, quem sabe vamos construir a nação que merecemos e deixar para trás apenas um país com tantos problemas e tantas crises. Nossa Senhora Aparecida nos ajude!
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