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Porto Alegre, quinta-feira, 23 de junho de 2016. Atualizado às 19h32.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 24/06/2016. Alterada em 23/06 às 17h37min

O mundo real

O diretor Santiago Mitre, o realizador de Paulina, é mais um a se manter fiel a uma tendência do cinema argentino, a valorização do personagem, que certamente é a responsável pela repercussão que aquela cinematografia vem obtendo fora de seu mercado interno. Nada mais justo, pois são obras realizadas a partir de roteiros bem elaborados e sobre os quais alguns realizadores têm demonstrado que a realidade cênica é indispensável para que uma determinada visão de mundo chegue ao espectador através de relatos que não dispensam recursos destinados a cativar as plateias, seja pelo impacto, seja pelo fascínio. O filme de Mitre tem origem em outra produção argentina, realizada em 1961 por Daniel Tinayre, a partir de um roteiro de Mariano Limas. O filme se chamava La patota, título que foi conservado por Mitre na nova versão, aqui trocado, não sem motivo, para o nome da protagonista. O novo roteiro foi escrito pelo próprio cineasta, em parceria com Eduardo Borrás. Não se trata, segundo o realizador, de uma refilmagem, mas de trabalho baseado em determinada obra. Uma variação, portanto, de um tema original.
O tema, por sinal, é difícil de ser tratado e possibilita interpretações das mais diversas. A mais evidente delas é o conflito da protagonista com a figura paterna. Não é por acaso que a narrativa começa com um longo plano-sequência na qual pai e filha discutem sobre determinada decisão dela. A protagonista, portanto, desde o início se opõe à autoridade do pai, figura que adquire uma força simbólica, pois é um juiz, representando em cena, portanto, a lei e o poder. Diante do pai, a personagem surge como a heroína de Sófocles na última das peças do ciclo tebano. Mas ela, como veremos mais tarde, não luta para cumprir um rito fúnebre. Ao contrário, seu combate é para que se revele inteiramente a verdade de um mundo deformado. Não luta para ter o direito de enterrar um irmão, mas para preservar um processo natural que irá expor uma realidade difícil de ser contemplada. Mitre não procura em seu filme um espaço em que seja clara a fronteira que separa o mundo visível de forças contidas pela civilização. Não é a primeira vez no cinema que elementos obscuros assim se manifestam, pois a decisão da personagem vivida pela atriz Dolores Fonzi a aproxima do olhar materno no epílogo de um dos mais célebres filmes de Polanski. Mas aqui, o olhar é outro: não é o da vitória do instinto, mas o de um desafio lançado ao espectador.
Antes que a ação termine, Mitre volta, de certa forma, à cena inicial, desta vez filmada de outra maneira. Mas os dois personagens centrais estão novamente em cena e em conflito. Não são necessários discursos e veemências para que Paulina seja um filme dotado de incomum dramaticidade. Mais do que isso, é obra complexa, na qual razões dos dois protagonistas se chocam e expõem fraturas difíceis de ser sanadas. O conflito que abre o filme termina originando uma situação inesperada, que acentua o fato de que o idealismo da jovem advogada é vencido pela dura realidade. O fato de os alunos se expressarem em parte do tempo em guarani reforça o distanciamento. E há também os recursos narrativos empregados de maneira a evidenciar ainda mais a complexidade. A ação avança e retrocede e, por vezes, é duplamente filmada por ângulos diferentes. Um exemplo de tal técnica é aquela sequência na qual a professora tenta um contato com seu algoz, promete toda a segurança, sem saber que o pai, utilizando seu poder, ordena uma caçada aos estupradores. É quando Mitre se aproxima do cerne de sua proposta. Causa e efeito são elementos quase sempre confundidos em casos do gênero. Ao expor, de maneira clara e contundente, a ação do poder, o realizador procura mostrar que a violência e a irracionalidade costumam se expandir de modo a ultrapassar fronteiras e de forma a não atingir o primeiro elemento. Os cães ferozes soltos representam uma forma violenta de agir que não se limita a um cenário no qual as marcas das deformidades sociais são evidentes. Paulina é um filme que não tem respostas, mas faz perguntas desafiadoras.
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