Comentar

Seu comentário está sujeito a moderação. Não serão aceitos comentários com ofensas pessoais, bem como usar o espaço para divulgar produtos, sites e serviços. Para sua segurança serão bloqueados comentários com números de telefone e e-mail.

500 caracteres restantes
Corrigir

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, quinta-feira, 09 de junho de 2016. Atualizado às 19h35.

Jornal do Comércio

Colunas

COMENTAR | CORRIGIR
Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 10/06/2016. Alterada em 09/06 às 19h05min

Prisioneiros

Um dos fatos mais deploráveis causados por distorções e pelas mais diversas formas de incompetência é a crise enfrentada pelas cidades nos últimos anos. Não se trata apenas de males causados pela sujeira, pelo transporte público deficiente, pela poluição visual causada por vândalos. O mal maior, sem dúvida, é aquele que transforma o ato de sair de casa numa aventura a ser vivida todos os dias pelos que necessitam enfrentar a dura realidade das ruas e percorrer um cenário no qual são evidentes os sinais de um retrocesso revelador. Não são poucos os cineastas a abordarem tal tema e dirigirem o foco para este processo que tem transformado os habitantes do mundo urbano em vítimas potenciais dos mais variados tipos de violência. O resultado de tudo isso é o medo que termina originando reações, entre as quais aquela que termina causando um tipo de afastamento que termina isolando os indivíduos. Isso para não falar em atitudes extremistas, que vão da ingenuidade que procura esconder a realidade ao clamor por atitudes dirigidas para os efeitos e não para as causas deste mal que a todos ameaça. Com Uma noite em Sampa, Ugo Giorgetti deixa sua contribuição ao tema, permanecendo fiel aos modelos que lhe serviram de orientação e trazendo para a tela sua admiração pelo Anjo exterminador, de Luís Buñuel, citado, por sinal, num dos diálogos do filme.
Giorgetti tem se destacado em nosso cinema por trabalhos que não seguem propriamente a linha dominante. Ele provavelmente é mais conhecido pelo público pela excelente crônica sobre futebol que assina uma vez por semana no Estadão. Além de falar de alguns jogos, sabe ver, com o olhar de cineasta, todo o drama que costuma se desenrolar durante 90 minutos. E também focaliza a vida de alguns nomes famosos, assim como fez em dois de seus filmes, ambos chamados Boleiros, nos quais antigos jogadores relembram acontecimentos passados, entre eles o de um juiz que obriga um jogador a bater um pênalti várias vezes até que o gol aconteça e sua renumeração fique garantida, uma maneira que o cineasta encontrou para satirizar a corrupção. Seu cinema tem entre seus modelos o de Ettore Scola, que, em alguns filmes, colocou a ação em um só cenário, algo que Giorgetti fez em Festa e agora em Uma noite em Sampa. Em Cara e coroa focalizou sem rancores e palavras de ordem as fraturas na sociedade brasileira. E em O príncipe, de certa forma, antecipou o filme de agora, ao colocar em cena um personagem que depois de vários anos de ausência retorna ao Brasil, para se deparar com uma realidade urbana muito distante de seu tempo de juventude.
O novo filme de Giorgetti acumula diversas características de sua obra. O cineasta é um autor verdadeiro, um dos mais interessantes de nosso cinema, mesmo que não esteja entre aqueles beneficiados por entusiasmos passageiros e que por vezes conseguem espaço e repercussão acima de seus méritos. Ir ao teatro ou ao cinema, sobretudo à noite, também se transformou numa aventura nas cidades brasileiras. Os personagens do filme abandonaram São Paulo para escapar da violência, mas voltam à cidade para assistir a uma peça, viajando num ônibus de uma empresa especializada. Eles terminam se transformando em um símbolo de uma sociedade abandonada. O diretor usa um ônibus sem motorista para falar do caos e não se limita aos aspectos exteriores da crise. Ao utilizar manequins colocados entre os personagens reais, o cineasta, de certa forma, investe contra o realismo que sempre cultuou em seus trabalhos, mas recorreu a tal método para acentuar a artificialidade nos relacionamentos humanos num mundo tumultuado e no qual o medo e a insegurança são fatores relevantes. Tal opção é menor do que outras em que a realidade não necessita ser alterada, como a citação a uma ópera de Verdi, embora o diretor tenha estreado no gênero com uma versão da Norma, de Bellini, e através do comportamento de uma cega, que julga ser outra coisa a realidade que sua falta de visão termina criando. A noite vivenciada como numa prisão pelos personagens não é o reino de criaturas fantásticas, mas um cenário do qual emergem ameaças e indiferenças, estas representadas por elementos que poderiam ser o socorro para uma sociedade abandonada.
COMENTAR | CORRIGIR
Comentários
Seja o primeiro a comentar esta notícia