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Porto Alegre, quinta-feira, 12 de maio de 2016. Atualizado às 18h17.

Jornal do Comércio

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cultura

11/05/2016 - 22h38min. Alterada em 12/05 às 18h17min

Vargas Llosa diz que 'Brasil vive um movimento anticorrupção'

Vargas Llosa falou sobre sua transição entre a crença no socialismo e a aceitação da democracia como ideal

Vargas Llosa falou sobre sua transição entre a crença no socialismo e a aceitação da democracia como ideal


Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento/Divulgação/JC
Alberi Neto
O Salão de Atos da Ufrgs lotou na noite desta quarta-feira (11) para receber Mario Vargas Llosa, escritor que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2010. A conferência “Cultura, literatura e liberdade” faz parte da edição deste ano do projeto Fronteiras do Pensamento, que completa 10 anos em 2016.
Jornalista, dramaturgo, ensaísta e crítico literário, o peruano é considerado um dos mais importantes escritores da atualidade. Essa é a segunda vez que ele é convidado ao evento. Neste ano, Llosa apresentou uma “palestra de grande cunho autobiográfico”, como explicou ao público na abertura da conferência.
Sobre o Brasil, Llosa apontou que “o País passa por um movimento anticorrupção, onde as pessoas abriram os olhos e não aceitam mais que o poder seja usado como forma de enriquecimento. O que se vê não só no Brasil, mas na América Latina, é uma limpeza, uma regeneração e uma purificação das instituições”. O jornalista ainda disse que “a esquerda e a direita estão cada vez mais próximas”.
O público presenciou um relato da vida do pequeno garoto que se apaixonou pelo socialismo na adolescência ao ler Do Fundo da Noite (Jan Valtin). Ele optou por ir para a faculdade pública do Peru, por seu “espírito rebelde, que lutava contra as ditaduras”. Llosa contou que durante um ano militou no Partido Comunista peruano, onde travava um grande debate entre intelectuais e decepcionava-se com o dogmatismo a qual o socialismo chegava, fortemente influenciado pelo stalinismo. Depois de sair do partido, o então garoto via diante de seus olhos a forte repressão aplicada contra a população pela ditadura peruana do General Manuel Odría.
O jornalista buscou no existencialismo francês a salvação para o dogmatismo stalinista ao qual temia. Neste recanto, encontrou o estímulo que lhe mostrou o poder que tinham as palavras. “Escrever permite trabalhar a favor da justiça, da liberdade”, explicou ao público o vencedor do prêmio Nobel, “a literatura não apenas proporciona encanto, entretenimento, ela move a história. E muitas vezes, pode move-la para o lugar certo.”
O ideal socialista de “construir o paraíso na terra” foi reforçado no pensamento do escritor quando eclodiu a Revolução Cubana, em 1959. “Hoje não se tem noção do entusiasmo que ela (Revolução Cubana) gerou. Era um movimento que conciliava ideais de justiça, solidariedade, igualdade, era o que se buscava”, relatou ao público.
Morando na França, ele foi enviado ao México para cobrir uma exposição, coincidentemente na mesma época da crise dos mísseis em Cuba, e viu com entusiasmo o que a revolução trouxe ao país. “Foi emocionante o que vi em Cuba. Me senti como George Orwell ao chegar na Espanha para lutar na Guerra Civil Espanhola. Havia uma felicidade, uma união das pessoas”, conta Llosa.
Entretanto, foi justamente a Revolução Cubana que fez com que Vargas Llosa perdesse a sua fé nos regimes socialistas. A década de 1960 foi correndo e levando o jornalista por mais algumas vezes a Cuba. Ele conta com certo nó na garganta as medidas tomadas por Fidel Castro que o fizeram romper com o socialismo. “O que tínhamos do socialismo era uma certa visão mítica e romântica”, relatou o escritor, “a criação das Umaps, espécie de campos de concentração, para onde eram levados homossexuais que vinham a Cuba buscando a liberdade prometida, foi o primeiro ato para minha descrença no socialismo”. Nessa época ele escreveu uma carta a Fidel Castro e foi convocado para um comitê de escritores e intelectuais que se reuniram com o chefe cubano. Llosa relata que ouviu Castro “dar voltas em sua mente durante doze horas com explicações que não o convenceram”.
O apoio de Cuba ao Pacto de Varsóvia e repressão intelectual no país, principalmente com a apreensão do escritor Herberto Padilla por publicar o livro Fuera de Juego, onde exibia as mazelas das autoridades cubana, levaram Llosa a romper de vez com o socialismo e com Fidel Castro.
Sentiu-se órfão, mas reencontrou segurança ao ler O ópio dos intelectuais, de Raymond Aron. No livro o autor explicava como o socialismo de Marx atraiu tantas pessoas. A resposta era a constante busca da perfeição das classes intelectuais, principais defensoras do socialismo. “Marx aparentava teoricamente, e só teoricamente, que seria possível trazer o paraíso a Terra por meio do socialismo”, explicou.
Relendo O homem revoltado, de Albert Camus, Vargas Llosa encontrou um norte. “Camus diz que não se pode afastar a moral da política jamais, quando isso ocorre, a violência aparece”. Foi uma fase de aceitação da democracia, onde o escritor pode ver que a perfeição era inalcançável, mas que era possível construir uma sociedade onde os erros podem ser consertados. “Hoje tenho esse ideal de democracia liberal, totalmente possível. E vejo hoje a América Latina com olhos muito mais otimistas, onde pode se esperar um futuro.”
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