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Memória Notícia da edição impressa de 28/04/2016. Alterada em 27/04 às 22h05min

Turismo histórico revisita a ditadura no Chile

fotos LIVIA ARAUJO/ESPECIAL/JC
No interior do museu, um memorial serve de espaço de reflexão para visitantes e parentes das vítimas

Lívia Araújo, de Santiago (Chile)

Por volta das 10h da manhã, um jovem vestido de camiseta listrada, de pé no jardim do Parque Cultural do Cerro Carcel, uma ex-prisão política a cerca de 100 m acima do nível do mar da cidade portuária de Valparaíso, no Chile, explica a cerca de 10 pessoas de diversas partes do mundo que, na véspera do dia 11 de setembro de 1973, dezenas de navios militares chilenos se voltaram contra o litoral, ameaçando atirar contra a própria população, caso o então presidente Salvador Allende não entregasse o poder aos militares. Autointitulado "Wally" (como o viajante da série de livros "Onde está Wally?"), o guia turístico apresenta um passeio pela montanhosa e colorida cidade litorânea, revisitando os fatos da história recente do País. O pagamento quem define é o próprio turista, que pode dar uma gorjeta generosa ou mesmo não pagar pelo tour, se não tiver sido de seu agrado. 
Em Santiago, o mesmo passeio guiado sai da praça em frente ao Museu de Belas Artes. Ao fazer uma parada em meio ao roteiro vespertino, que inclui o Palacio de la Moneda, sede do governo chileno, a guia explica que "o melhor modo para entender o Chile de hoje é conhecer mais o seu passado". O preâmbulo é dito pela "Wally" santiaguina em frente à estátua de Allende (somada às de outros ex-presidentes), que governou o Chile de 1970 a 1973 e foi deposto durante a tomada do poder pelos militares, quando também morreu em condições ainda não totalmente esclarecidas.
Em um trecho mais denso do tour, a guia explica o clima que antecedeu o golpe, com greves de caminhoneiros e uma campanha do jornal oposicionista El Mercúrio, um dos principais do país e que, logo após a intervenção militar, tornou-se o jornal oficial do regime.
Com mais de 40 mil vítimas, entre desaparecidos, mortos e torturados, e das quais 3.225 foram assassinadas pelo regime, em levantamento apurado pela Comissão Valech (ramificação da Comissão da Verdade chilena), o Chile é palco de diversas iniciativas voltadas ao resgate da memória do período entre 1973 e 1990, quando o país foi governado pelo general do Exército Augusto Pinochet - falecido em 2006 - e viveu violações sistemáticas dos direitos humanos. Uma das iniciativas é o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, inaugurado em 2010 pelo governo da presidente socialista Michele Bachelet.
O espaço traz à luz aspectos diversos da vida dos chilenos durante a ditadura, com exposição de cartazes e periódicos clandestinos, os arriscados protestos realizados por familiares e ativistas políticos e a campanha feita pelo governo - a oposição era proibida de fazer campanha - nos dois plebiscitos que consultaram a população em relação à continuidade do regime. O último deles, em 1988, foi o único em que houve contagem de votos e que garantiu a vitória do "não", que marcou o fim do regime em 1990 e deu a Pinochet o posto de senador vitalício.
O museu também dispõe, para consulta, da cópia dos relatórios da comissão da verdade, que contêm dados como os dos 1.132 centros de tortura do País. Segundo a guia Aurora Saavedra, um dos efeitos desse trabalho foi promover reparações sociais (como a não obrigatoriedade do serviço militar), financeiras (incluindo a concessão de bolsas de estudo) a indivíduos afetados pelo regime e seus descendentes. "Além disso, há reparações simbólicas, como a deste museu, por exemplo, que foi construído basicamente para resgatar a dignidade das vítimas."
O Museu da Memória é um local de vigília dos parentes das vítimas. No terceiro andar do prédio, um painel traz fotos de metade dos mais de 3 mil mortos no período ditatorial, e uma sala envidraçada e com luminárias em forma de velas recebe os visitantes para uma reflexão silenciosa.
Em âmbito internacional, o museu também traz um quadro com 35 comissões da verdade em todo o mundo, formadas até 2015, incluindo, além do próprio Chile, países como Brasil, Argentina, Alemanha e Coreia do Sul. Além disso, um quadro mostra os principais destinos dos exilados chilenos durante os "anos de chumbo". Um dos principais é a Suécia, que recebeu cerca de 15 mil exilados.
O local também recebe mostras temporárias, como a exposição Asilo/Exílio, que tem o propósito de dar visibilidade a violações aos direitos humanos durante o período da ditadura.

Na Argentina, o espaço de resgate da história do período funciona em antiga escola do Exército


Iniciativas para o resgate da memória do período das ditaduras militares latino-americanas têm ocorrido concomitantemente em países como Argentina, Brasil, Paraguai e Peru, alguns com a abertura de museus focando especificamente a questão das violações de direitos humanos no período.
Uma das iniciativas existentes é a do Espacio para la Memoria y para la Promoción y Defensa de los Derechos Humanos, em Buenos Aires, na Argentina. A criação do espaço foi decretada em 2004 pelo então presidente Nestor Kirchner e, desde 2007, ocupa o mesmo prédio que abrigou a Escuela Mecánica de la Armada (Esma), que funcionou, a partir de 1976, ano do golpe militar argentino, como um centro clandestino de detenção, tortura e extermínio de prisioneiros políticos. Atualmente, dois centros culturais ocupam o espaço: o Centro Cultural de la Memoria Haroldo Conti e o Espacio Cultural Nuestros Hijos, administrado pelas Mães da Praça de Maio, ambos com um acervo documental e cultural retratando o período.
Museus do gênero também estão localizados em Montevidéu, no Uruguai; na cidade argentina de Rosário; na capital paraguaia, Assunção; em Santo Domingo, na República Dominicana; e em São Salvador, capital Salvadorenha. Em Porto Alegre, o Comitê Carlos de Ré, da Verdade e Justiça tenta transformar o prédio que abrigou o centro clandestino de tortura conhecido como Dopinha no Memorial Ico Lisboa. O prédio fica na rua Santo Antônio, 600, no bairro Bom Fim.
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