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Teatro Antônio Hohlfeldt


Teatro

Notícia da edição impressa de 18/03/2016

A revelação do lugar escuro

Havia enorme expectativa com a estreia de O lugar escuro, texto dramático da escritora Heloisa Seixas, adaptação de um romance de sua própria autoria. Tema difícil e, de certo modo, outro "desvio" - não, não é bem a palavra - outro "desvão" das preocupações do diretor Luciano Alabarse, que, depois de, durante muitos anos, ter desenvolvido uma carreira exitosa dentro de certas linhas perfeitamente reconhecíveis, mais recentemente tem se permitido trilhar outros caminhos, como este, tão provocativo quanto difícil: um texto autobiográfico que fala a respeito de uma doença, o mal de Alzheimer.
Heloisa Seixas - pouca gente sabe - estreou como prosadora, com um livro de contos chamado Pente de Vênus, em 1995, através da editora porto-alegrense Sulina. Ela vinha antecedida de comentários muito positivos, e o volume surgiu com avaliações altamente encomiásticas, de Carlos Heitor Cony, Ruy Castro, Sérgio Augusto e Marcos Santarrita, dentre outros.
Heloísa deu continuidade à sua carreira, nos anos seguintes, com uma série de livros, até 2007, quando publicou O lugar escuro, romance de certo modo autobiográfico, mas também um texto recriador de uma secreta tragédia, dela se tornando uma espécie de filtro compensatório. Na noite de estreia da peça, que redundou do romance, cuja dramaturgia foi desenvolvida pela própria escritora, ela estava na plateia do auditório do Goethe Institut junto com a filha. Fiquei atrás de ambas, que acompanharam, emocionadas, a encenação de pouco mais de hora de duração, mas que pesa como se fosse todo um século (a verdade, o é, pelo tema e por seu desenvolvimento).
O texto de O lugar escuro está dividido em dois grandes blocos. O primeiro deles, que ocupa cerca de metade do espetáculo, é narrativo e talvez demasiadamente didático, como aquelas 100 páginas iniciais de O nome da rosa, de Umberto Eco. Chega a ser cansativo. Contudo, a partir do momento em que a personagem da mãe (Sandra Dani) se enreda nos fios de tecer, o espetáculo ganha ritmo, como que se encontra, se desvencilha e daí engrena. Retroativamente, entende-se, então, que a primeira parte era necessária, assim lenta e pesada, para preparar o ambiente da segunda, verdadeiramente dramática. Era um noviciado.
Esta segunda parte é catártica, mas não apenas no sentido aristotélico, de purgação de alguma culpa (a culpa de chegar a odiar a mãe, por exemplo), mas catártica porque cada um dos espectadores consegue aproximar-se de tal modo da personagem (ou ela de cada um de nós) que podemos no colocar dentro do drama que se encena no palco, porque cada um de nós se torna aquela filha que precisa entender a mãe e, a partir daí, amá-la. É quando, de fato, a dramaturgia se afirma e o diretor se apresenta, permitindo que as personagens ajam verdadeiramente em cena: passamos às emoções, de certo modo, torcemos em cada cena, e chegamos, enfim, à mesma revelação que a personagem experimenta, uma epifania que faz com que ela descubra o quanto amava a mãe e o quanto ela precisava concretizar este amor através, justamente, da compreensão, adesão e proteção da mãe, naquele estado terminal da doença.
Luciano Alabarse sempre foi um diretor de atores, desde seus primeiros espetáculos, mas neste trabalho ele consegue um ponto meticulosamente dosado e fundamental para que a peça se desenvolva, emocionalmente, mas sem emocionalismos folhetinescos. Por isso, o espetáculo é contido, e as emoções se transmitem sobretudo do encontro das personagens com os objetos em cena.
Aliás, o cenário é do próprio diretor. A passagem em que a mãe mexe nas cortinas, por exemplo, é perfeita. Assim como estão absolutamente na medida Gabriela Poester (jovem), a madura Vika Schabbach (mulher) e a extraordinária Sandra Dani (velha). Quando o espetáculo termina, a gente quer gritar e berrar. Eu preferi apenas sussurrar um agradecimento. Dizer o que mais? Ouça quem quiser, escute quem for capaz.
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