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Saúde Notícia da edição impressa de 08/02/2016. Alterada em 07/02 às 21h55min

Zika chega ao Estado e põe governo em alerta

MARCELO G. RIBEIRO/JC
Gabbardo relatou primeiro caso autóctone de dengue na Capital em 2016

Jessica Gustafson

A Secretaria Estadual da Saúde (SES) já havia afirmado que era apenas uma questão de tempo para que o zika vírus começasse a circular no Estado. E a previsão se concretizou: na sexta-feira, o secretário João Gabbardo dos Reis confirmou o primeiro caso importado da doença em uma mulher não gestante, moradora da Capital, que viajou ao Mato Grosso.
Os primeiros sintomas apareceram no início de janeiro, e a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) realizou diversos bloqueios no mês passado, no bairro Jardim Carvalho, onde ela reside, para evitar a circulação do vírus. Nesta semana, a prefeitura inicia a testagem dos mosquitos para o zika. Até o momento, o Aedes aegypti só vinha sendo monitorado para a dengue.
Também foi confirmado o primeiro caso de dengue autóctone em 2016 na Capital, contraído no bairro Vila Nova. Dois outros moradores da mesma residência apresentaram os sintomas e estão sendo investigados. "Até o momento, temos 36 casos de dengue confirmados no Estado em 2016, sendo quatro deles autóctones. Em relação às notificações, temos cinco vezes mais casos em investigação do que tivemos nas primeiras semanas de 2015", afirmou Gabbardo.
Ao todo, são 572 casos suspeitos de dengue no Rio Grande do Sul, sendo 157 na Região Metropolitana e 58 na Capital. De acordo com o secretário, 180 municípios estão infestados pelo mosquito, sendo que 15 deles apresentaram casos importados e quatro com autóctones (São Paulo das Missões, Guaíba, Viamão e Porto Alegre).
Em relação ao zika, 40 pessoas estão sendo investigadas em sete municípios diferentes, sendo uma delas gestante. Na Capital, são dez casos em investigação. "O vírus chegou ao Estado, e isso faz com que tenhamos preocupação. Sabemos que as condições climáticas de chuva e calor são favoráveis para a reprodução do mosquito. No ano passado, o inverno não ajudou, pois eles só morrem em temperatura menor do que cinco graus", explicou o secretário.
O grande temor relacionado ao zika, que apresenta sintomas mais leves que a dengue, é o da microcefalia em recém-nascidos. Até a semana passada, o País tinha 3.670 casos de suspeita investigados, além de 404 bebês com microcefalia ou síndromes neurológicas relacionadas ao vírus. Gabbardo disse que é preciso ter cautela, principalmente em relação ao debate sobre o aborto. "Microcefalia não é a mesma coisa que anencefalia. Na primeira, o bebê tem condições de viver. As pessoas não podem se precipitar", ressaltou.
O zika foi identificado em 1968, mas apenas em 2007 foi identificado o primeiro surto da doença, na Ilha de Yap, na Micronésia. Em 2013 e 2013, a situação se repetiu na Polinésia Francesa. No Brasil, os primeiros casos começaram a ser notificados em 2014, na região Nordeste. Em abril de 2015, foi confirmada a primeira transmissão autóctone da doença. A mesma situação foi confirmada em 21 países/territórios nas Américas.
Em 2015, o Rio Grande do Sul teve 28 casos suspeitos da febre, mas nenhum foi confirmado. Entretanto, no ano passado, um bebê nasceu com microcefalia relacionada ao vírus em Esteio. A mãe esteve em Pernambuco durante a gestação.
Em relação à febre chikungunya, já foram notificados, neste ano, 39 casos suspeitos no Estado, mas nenhum confirmado até o momento. Em 2015, foram 79 casos suspeitos, sendo cinco deles confirmados. Todos foram contraídos em outros estados, como Bahia, Pernambuco e Maranhão.

Fiocruz detecta presença do vírus em saliva e urina


A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) informou, na sexta-feira, que detectou a presença do zika vírus com potencial infecção em saliva e urina. A pesquisa não esclarece, no entanto, se o vírus é contagioso. Apesar disso, não é possível afirmar ainda se ele pode ser transmitido por fluídos corporais.
De qualquer forma, a Fiocruz recomendou que mulheres grávidas evitem circular em ambientes com aglomeração de pessoas, compartilhar talheres e copos, e até mesmo beijar pessoas com suspeita da doença.
"As grávidas podem se resguardar. Não por ser uma verdade absoluta (a possibilidade de contágio), mas por cautela", disse Myrna Bonaldo, coordenadora da pesquisa que teve a colaboração da infectologista Patrícia Brasil. O estudo foi baseado em amostras referentes a dois pacientes.
Em nota, o Ministério da Saúde sugere "cautela" e "prevenção" diante da nova possibilidade de transmissão. A orientação é "evitar compartilhar objetos de uso pessoal (escovas de dente e copos, por exemplo) e lavar as mãos".

ONU defende aborto em casos de gestantes infectadas


A Organização das Nações Unidas (ONU) defende que países com surto do zika vírus autorizem o direito ao aborto em casos de infecção em gestantes, uma vez que o quadro pode estar relacionado ao aumento de bebês diagnosticados com microcefalia. A declaração partiu do alto-comissário de Direitos Humanos da ONU, Zeid Ra'ad Al Hussein. Para ele, garantir os direitos humanos de mulheres nesse contexto é essencial para que a resposta à emergência em saúde pública relacionada ao zika seja efetiva.
Ainda segundo Hussein, os governos devem garantir o acesso à informação e aos serviços de saúde reprodutiva e sexual, como a contracepção, incluindo a oferta de pílula do dia seguinte, a saúde materna e o aborto seguro e legal. "Conter a epidemia de zika é um desafio para os governos na América Latina", afirmou. "Entretanto, a orientação de alguns governos para que mulheres adiem a gravidez ignora a realidade de que muitas delas simplesmente não podem exercer controle sobre quando e em que circunstâncias ficar grávida."
Por meio de nota, a própria ONU reforçou que autoridades devem garantir que as respostas em saúde pública estejam em conformidade com suas obrigações no campo de direitos humanos.
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