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Especial Notícia da edição impressa de 01/03/2016. Alterada em 01/03 às 09h29min

Indexação volta a pressionar a inflação

Marina Schmidt

Trinta anos após o primeiro grande plano para conter a inflação - o Plano Cruzado -, a alta dos preços no Brasil volta a assombrar a população. No ano passado, quando o índice oficial do País, o IPCA, chegou a 10,67%, o percentual de variação de preços aproximou-se dos patamares atingidos em 2002, quando a taxa chegou a 12,53%. Antes disso, o último ano em que foram registrados os temidos dois dígitos foi 1995, quando, já sob o efeito do Plano Real, de 1994, o País dava adeus ao período hiperinflacionário que enfrentou nas décadas de 1980 e 1990. Para quem conviveu com uma inflação que, ao ano, já chegou a três e até a quatro dígitos (a maior alta ocorreu em 1993, quando o IPCA alcançou exatos 2.477,15%), a casa decimal não causa o mesmo temor que há 30 anos pairava sobre o País, mas já é um sinal de alerta.
O contexto da economia brasileira, antes da década de 1980, já era o da inflação de dois dígitos por ano. Somado a isso, a política fiscal perdia credibilidade, com o aumento consecutivo do déficit público. Esse cenário foi ficando mais nebuloso com revezes econômicos internacionais, como o choque do petróleo e a crise da dívida. Estavam reunidas as condições que levariam à hiperinflação. "Houve uma desvalorização absurda do câmbio, e tudo isso provocou aumentos de preços muito fortes em uma economia que já não vinha muito bem", explica o doutor em Economia e coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec/MG, Reginaldo Nogueira.
Essa avalanche é resultado de um ciclo de aumentos, em que uma elevação de preço levava a outra em um efeito em cadeia que parecia não ter fim. Assim era a indexação, que está se propagando, novamente, na atual economia brasileira. "Parece que a gente não aprendeu. Depois de 20 anos, estamos voltando a criar os mecanismos de indexação", avalia o doutor em Economia e professor titular da Ufrgs Marcelo Portugal.
Outro fenômeno inerente à elevação dos preços é a inércia inflacionária. "É mais ou menos o que está acontecendo agora", introduz Nogueira. Quando se perde a capacidade de previsibilidade dos índices de inflação, o natural é que os preços comecem a replicar taxas anteriores. Dessa forma, aquela elevação que seria de curto prazo, apenas um choque temporário, acaba se estendendo por um período maior se não houver uma sinalização clara do patamar dos preços no médio e longo prazo. "As pessoas não sabem para onde os preços vão convergir, porque, nos últimos anos, o Banco Central simplesmente ignorou a meta de 4,5%."
Tanto a inércia quanto a indexação estão entre as razões que fazem com que a inflação atual esteja tão persistente, afirmam os economistas. São, também, as mesmas origens que, há 30 anos, conduziram o País para o descontrole inflacionário. Apesar de não haver risco de eminente retorno a percentuais tão altos quanto os daquele período, a sinalização é de que a economia brasileira ainda irá caminhar em meio a tropeços nos próximos anos.
O apontamento não vem só dos dois economistas, que, apesar das projeções pessimistas, se classificam como otimistas, mas o mercado financeiro como um todo, ainda que confiante na recuperação do Brasil, prevê que a retomada ocorrerá de forma lenta. Isso arrasta o Brasil para mais um termo dos brasileiros vinculado à década de 1980: a década perdida.
É exatamente o que prevê a consultoria inglesa Oxford Economics para os próximos 10 anos no País, que projeta um crescimento médio inferior a 2% nesse período, patamar muito próximo do atingido pela economia brasileira nos anos 1980, quando a evolução média ficou em 1,7%, segundo dados do IBGE.

'Já vimos esse filme antes', dizem consumidores


A opinião de economistas e analistas de mercado encontra respaldo no público que mais sente os efeitos da alta persistente dos preços. Os consumidores que recordam, sem saudade, da hiperinflação se deparam, atualmente, com a mesma realidade de décadas atrás - em menor proporção, é importante frisar.
"No tempo do Plano Cruzado, os preços mudavam de um dia para o outro e até no mesmo dia", lembra a dona de casa porto-alegrense Lourdes Maria Sordi. "Agora, você viu como estão os preços hoje. Tá demais!", exclama, puxando a conversa para o presente. De 1986, ela lembra que os compradores recorriam ao bordão da época para exigir o cumprimento das tabelas de preços. "Eu sou fiscal do Sarney, a gente dizia", conta.
Hoje, Lourdes nota que os preços estão variando para cima com uma incômoda frequência que não chega a ser diária, mas que se manifesta de um mês para outro e até semanalmente. A variação é confirmada pelo Movimento Edy Mussoi de Defesa dos Consumidores do Rio Grande do Sul - conhecido até pouco tempo como Movimento das Donas de Casa e Consumidores do Rio Grande do Sul. A entidade foi criada no fim da década de 1980 e teve forte atuação no combate à inflação.
De acordo com o presidente, Cláudio Pires Ferreira, o grupo faz levantamentos de preços frequentes. "Semanalmente, temos notado que há uma elevação dos preços nos supermercados em geral, o que é uma situação muito preocupante", afirma. "A gente já viu esse filme antes, e não foi bom para os consumidores. Não foi bom para ninguém. É a volta da inflação."
A pesquisa formal de preços feita pelo movimento contempla 47 itens. A última verificação mensal foi feita em dezembro, e a próxima será feita em março, mas Ferreira destaca que os integrantes discutem a variação todas as semanas. "Sucessivamente há uma variação muito grande de preços", pontua. "Entre novembro e dezembro, houve uma oscilação de 13% a 14%, entre o supermercado que vendia mais caro e o que vendia mais barato. Para uma inflação que beirou os 10% ao ano é muito."
O sentimento preponderante é o de que a tentativa de recomposição do poder de compra, propagada nos preços aplicados ao consumidor final, somado ao maior custo do dinheiro, com alta dos juros e crédito mais restritivo, está levando ao que Ferreira chama de "espiral negativa". Em meio a esse contexto, a noção de preços vai se perdendo. "O cenário está mais sombrio para o ano de 2016", projeta o presidente do movimento.
 
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