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conjuntura Notícia da edição impressa de 07/03/2016. Alterada em 04/03 às 20h50min

Crise tem efeito dominó no País

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A turbulência que atinge a economia brasileira tem sido acompanhada por uma crise de confiança por parte do empresariado. Temerosos quanto aos possíveis desdobramentos, muitos deles colocaram o pé no freio para investimentos e reduziram também o ritmo de atividade, tanto na produção de bens quanto na prestação de serviços. A redução de vagas foi uma das medidas adotadas, o que puxou as taxas de desemprego para cima. Os trabalhadores dispensados, que já sofriam com a queda no poder de compra diante do aumento da inflação, ficaram sem recursos para arcar com as contas mensais, e passaram a engordar os índices de inadimplência.
O temido efeito dominó não só está estabelecido como ganha proporções maiores. Os gastos com serviços básicos, normalmente priorizados, entraram nos compromissos em atraso. Agora, quem sente o reflexo da inadimplência são as concessionárias de energia, de água e de gás e operadoras de telefonia. O mesmo se aplica a planos privados de saúde, provedores de internet e prestadores de serviços particulares de educação. A costureira Angela Rosa Alcon Velasques, natural de La Paz, na Bolívia, e que há 10 anos vive no Brasil, por exemplo, deixou de pagar a conta de luz porque perdeu o emprego. "Estou devendo seis meses de luz, mais de R$ 1,6 mil." "Devo também o telefone fixo, que foi cortado."
Angela usava uma máquina de costura elétrica para trabalhar em casa e ficou inadimplente na conta de energia e no telefone porque perdeu o trabalho. Agora, ela tenta uma renegociação da pendência com a concessionária de energia elétrica. Enquanto a situação não melhorar, Angela planeja fazer trabalhos esporádicos e usar as poucas reservas que tem para viver.
Angela engrossa as estatísticas do aumento das dívidas com contas básicas que, desde o ano passado, não para de crescer. Em janeiro deste ano, o grande destaque dos índices de inadimplência apurados pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) foram justamente as contas de serviços básicos que são prestados.
"Não é só banco e loja que estão deixando de ter o seu dinheiro de volta", afirma a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti. Em janeiro, o número de contas inadimplentes de água e luz aumentou 17,01% na região Sul e 13,03% no Centro-Oeste em relação ao mesmo mês do ano passado, enquanto a inadimplência média (que inclui também pendências com comércio, bancos e serviços de comunicação) cresceu cerca de 6% no mesmo período.
Já nas regiões Norte e Nordeste, os maiores avanços do calote em janeiro na comparação anual foram registrados em serviços de comunicação. No Norte, foi de 9,89%, ante uma inadimplência média de 6,53% no período, e, no Nordeste, de 12,39%, enquanto o calote médio da região aumentou 8,43%. A região Sudeste está fora das estatísticas de inadimplência por causa das mudanças na lei de negativação vigente no Estado de São Paulo, o que pode distorcer a base de comparação.
"A inadimplência tem se colocado na vida dos brasileiros de forma tão abrangente que até as contas mais essenciais estão deixando de ser pagas", observa Marcela. Ela pondera, no entanto, que as pendências com bancos respondem pela maior parte das dívidas em atraso, entre 30% e 40%, dependendo da região. Mas o avanço do calote em contas básicas é, na opinião da economista, um sinal de alerta sobre a extensão e a gravidade da crise.
Sem revelar os números, Luis Carlos Bento, presidente da Intervalor, empresa de cobrança que tem boa parte da carteira nos segmento de telefonia e TV por assinatura, confirmou que houve aumento expressivo na inadimplência. Segundo ele, o principal motivo alegado pelo consumidor é o desemprego. "A grande preocupação das empresas é não perder o cliente que ficou inadimplente, por isso elas estão mais flexíveis na renegociação", disse. "Essa crise está na população, as outras estavam no mercado financeiro."

Nos planos de saúde, são 13,7 mil beneficiários a menos por mês


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Perda de poder aquisitivo é um dos fatores que contribuíram para a queda
A crise criou um efeito cascata nas operadoras de saúde. Empresas começaram a dispensar funcionários, que deixaram de ter o benefício do plano de saúde e, assim, as operadoras perderam 13,7 mil beneficiários por mês entre setembro de 2014 e setembro de 2015, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). No período, o total de beneficiários caiu de 50,4 milhões para cerca de 50,3 milhões.
Diretor da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), Pedro Ramos diz que o setor vinha registrando alta nos últimos anos. "É a primeira vez que tem uma queda acentuada. Quando fecha uma vaga de emprego, perdemos de dois a quatro beneficiários." Documento divulgado pela Abramge revela que, desde janeiro de 2014, o mercado de saúde suplementar demonstra sinais de enfraquecimento.
Como resultado deste processo, a taxa média de crescimento em 12 meses que era de 3,7% ao ano no primeiro trimestre de 2014 reduziu continuamente até atingir índice de -0,3% no terceiro trimestre de 2015. Esse cenário se consolidou com a perda de beneficiários registrada nos primeiros nove meses do ano, encerrando setembro de 2015 com 50,3 milhões - número 0,9% inferior ao verificado em dezembro de 2014.
No cenário econômico, os principais fatores que contribuíram para essa queda, segundo a entidade, foram aa deterioração das expectativas com previsão de resultado negativo para o PIB em 2016, o aumento do desemprego, a taxa de inflação, a perda de renda da população e a redução do consumo e do investimento. Consultado, o Ministério da Saúde informou que "os atendimentos realizados são crescentes, mas não é possível relacionar isso a desistência de usuários em possuir planos de saúde".

Ensino particular amargou perda de 1 milhão de alunos no ano passado


STOCKVAULT/DIVULGAÇÃO/JC
Rede privada contabiliza 12% a menos de estudantes em relação a 2014
O reflexo da crise também é percebido na educação. As escolas particulares do País calculam ter perdido um milhão de alunos, desde o ano passado, por conta da retração econômica. De acordo com a Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen), a rede privada perdeu 12% dos mais de 9 milhões de alunos que tinha em 2014, segundo o censo escolar.
Para Roberto Geraldo Dornas, presidente da Confenen, apesar de já terem sentido os efeitos da crise no ano passado, as famílias teriam feito outros cortes no orçamento doméstico antes de decidirem pela troca de escola. "Quem coloca o filho na escola particular vê esse gasto como prioridade, um investimento. Por isso, tirar o filho da escola é a última alternativa."
De acordo com Dornas, no ano passado, a Confenen chegou a estimar que a rede privada poderia perder até 20% dos alunos, mas, segundo ele, as empresas fizeram um esforço adicional para negociar alternativas com as famílias. "As escolas sabiam que seria um ano difícil. A inflação está muito alta, houve aumento de luz, água, internet e seria impossível não repassar para as mensalidades."
De acordo com dados divulgados pela Rádio Cofenen, para este ano, as escolas particulares devem reajustar as mensalidades entre 10% e 15%. A entidade aponta as altas da inflação, o aumento dos impostos e a Lei da Inclusão Plena como os principais motivos para o reajuste.
A Lei de Inclusão Plena, que passou a valer neste ano, determina que crianças especiais, independentemente do grau de deficiência, estudem em sala de aula comum. De acordo com a entidade, as escolas precisam fazer ajustes para oferecer a estrutura necessária para receber esses alunos, o que demandará investimentos e estudos para de fato garantir os direitos das crianças especiais. Além disso, outro fator que contribui para o reajuste das mensalidades, segundo Dornas, é o alto número de transferências da escola particular para a rede pública.

Quase 100 mil lojas foram fechadas em 2015


STOCKVAULT/DIVULGAÇÃO/JC
O apelo à criatividade, às promoções e ao corte de custos tem sido o mantra dos comerciantes brasileiros neste início de ano, mas nada deve salvar o varejo de uma nova retração nas vendas em 2016. Desemprego crescente, elevado endividamento das famílias e crédito caro persistem e habitam os piores pesadelos dos empresários, que no ano passado já assistiram ao maior tombo nas vendas desde 2001 e fecharam quase 100 mil lojas. O baque foi tão grande que o comércio acabou perdendo espaço para outras atividades na economia.
Como nada mudou na passagem do ano, o encolhimento deve continuar. No mês passado, a Fundação Getulio Vargas (FGV) mostrou que os comerciantes reclamam cada vez mais da demanda insuficiente e dos custos com mão de obra, o que pode incentivar demissões nos próximos meses. O próprio indicador de emprego previsto caiu 3,3 pontos, para o menor nível da série histórica, iniciada em março de 2010. "Isso é um sinal de que o ritmo de redução de pessoal ocupado no setor deve aumentar nos próximos meses", explica Aloisio Campelo, superintendente adjunto de Ciclos Econômicos da FGV.
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) espera pela demissão de aproximadamente 245 mil trabalhadores formais neste ano - o comércio já fechou quase 181 mil vagas em 2015. Mas o problema não deve se limitar a demissões. Sem clientela suficiente, quase 100 mil lojas deixaram de existir no ano passado. "A tendência de fechamento deve continuar. O comércio continua com o pé na lama", afirma o economista da CNC Fabio Bentes.
Sem uma via de escape, o varejo depende do consumo doméstico. Só que os brasileiros seguem pessimistas diante do aumento do desemprego e da queda na renda e, na tentativa de equilibrar o orçamento doméstico, acabam freando os gastos. Muitos inclusive têm recorrido à poupança para conseguir manter as contas em dia. "Há menos pessoas trabalhando e muitas pessoas ganhando menos. Isso impacta", diz o economista Thiago Biscuola, da RC Consultores. No ano passado, as vendas no varejo restrito encolheram 4,3%, o pior resultado desde o início da pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2001. No segmento ampliado, que inclui veículos e material de construção, o tombo foi ainda maior, de 8,6%. Como resultado, o Produto Interno Bruto (PIB) do comércio deve ter encolhido 8% no ano passado, o pior resultado desde o início das Contas Nacionais em 1948, estima a CNC.
A forte queda no PIB do comércio em 2015 abortou o processo de crescimento do peso da atividade na economia brasileira, um caminho encarado como natural pelos economistas. No ano passado, 10,5% da renda gerada no País veio do comércio, contra 11,1% em 2014, segundo estimativas do Monitor do PIB, produzido pela FGV. A Via Varejo, braço do Grupo Pão de Açúcar que reúne as marcas Casas Bahia e Ponto Frio, também vai intensificar os cortes de investimentos e deve ser mais seletiva no crédito diante do preocupante aumento da inadimplência observado atualmente. A rede fechou 23 lojas e demitiu mais de 11 mil funcionários durante o ano passado. O lucro líquido da empresa encolheu expressivos 99,7% ante o ano anterior, para R$ 3 milhões. A Magazine Luiza é outra gigante do comércio brasileiro que espera dificuldades em 2016. O presidente da companhia, Frederico Trajano, afirmou que a gestão tem mirado em cortes de custos para enfrentar a crise.

Ritmo frenético do 'passo o ponto' indica momento ruim


As fachadas de estabelecimentos comerciais já têm a crise estampada nos letreiros. É impossível não notar as cada vez mais frequentes faixas de "passo o ponto" - fora a quantidade incomum de imóveis fechados, acumulando poeira entre uma placa de "aluga-se" e outra de "vende-se".
Com a disputa pelo cliente cada vez mais acirrada, os lojistas tentam lançar mão de promoções para atrair os brasileiros. Renegociação de prazos e valores com fornecedores e medidas de redução de custo também estão no "script" das empresas. Mesmo assim, o crédito travado e a inadimplência em crescimento mínguam os planos de grandes varejistas.
Afonso Marin, 33 anos e terceira geração à frente do negócio criado por Manoel José Martins Pintor em 1965, seu tio-avô, desistiu de tentar sair do vermelho e fechou as portas da Sampa Books - até a chegada de Afonso à administração, em 2014, ela se chamava Supercap. Presidente da Associação Nacional de Livrarias, Marin diz que o setor está "sem sistema imunológico". Um dos causadores da crise, ele diz, é o fato de ter de concorrer com seu fornecedor - no caso, editoras que vendem direto ao consumidor. "Ficou insustentável ter uma livraria. O varejo é a ponta da lança e não tem suporte da cadeia para continuar", diz. A situação foi ficando mais difícil do segundo semestre do ano passado para cá, com a queda expressiva de movimento.
A Sampa Books não foi a única. Em 2015, a Solário (Rio, 22 anos), a Status (Belo Horizonte, 40 anos) e a Valer (Manaus, 25 anos) saíram de cena. Uma crise que não atinge apenas as independentes e diz respeito a diversos fatores - do aumento do aluguel e má administração à falta de leitores. Maior rede de livrarias, a Saraiva fechou duas lojas no Rio de Janeiro.
A Cultura, por sua vez, abortou novas aberturas e está revendo contratos. "A crise só acentua um problema pelo qual o varejo passa: o consumidor não precisa de loja. Precisamos pensar no futuro da loja física", diz Sérgio Herz, presidente da rede. Seu e-commerce já vende mais que qualquer uma das 17 lojas da marca.
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