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MÚSICA Notícia da edição impressa de 27/01/2016. Alterada em 26/01 às 18h55min

A poesia crítica de Chico César retorna a Porto Alegre

MARCOS HERMES/DIVULGAÇÃO/JC
Chico César faz show no Teatro do Bourbon Country

Ricardo Gruner

Menos de um ano após sua mais recente passagem por Porto Alegre, o compositor Chico César retorna à Capital gaúcha para espetáculo hoje à noite. E, se em 2015 sua visita ao Estado ocorreu dentro da turnê do 26º Prêmio da Música Brasileira, que teve Maria Bethânia como homenageada, desta vez o artista vem divulgar seu mais recente disco.
Baseada no álbum Estado de poesia (2015), a apresentação ocorre no Teatro do Bourbon Country (Túlio de Rose, 80), a partir das 21h. Ingressos podem ser adquiridos na bilheteria local ou pelo site www.ingressorapido.com.br. Os valores dos tíquetes custam R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia).
O registro quebra um hiato em que o músico ficou oito anos sem colocar um compacto de inéditas no mercado. Deste período, seis anos foram dedicados à gestão pública: o cantor foi diretor da Fundação Cultural de João Pessoa e Secretário de Estado da Cultura na Paraíba - onde nasceu. Durante essa fase, chegou a passar por uma espécie de bloqueio até que surgiu a canção Patchuli, a qual acabou sendo gravada por Elba Ramalho. "Ali, eu vi que estava começando a voltar a compor", relembra.
Conforme o próprio Chico César, a vida na política aguçou sua percepção das contradições "entre a pujança criativa e a relativa pobreza de meios de produção", além de mexer com seus sentidos de afeto e da criação. Como resultado, escreveu um álbum engajado e cheio de musicalidades distintas. "Depois de ficar muito tempo sem compor, estou, até certo ponto, reivindicando meu lugar. É como me coloco no mundo, como compositor", explica ele, ressaltando que o mundo precisa de "mais troca" para viver em estado de poesia.
No disco, o paraibano se reveza entre abordagens pessoais e um discurso explícito sobre questões sociais. Um exemplo da faceta política está em Reis do agronegócio. Nos versos dedilhados dos 11 minutos da canção, aparecem frases como "Vocês que pilham, assediam e cobiçam / A terra indígena, o quilombo e a reserva" ou "Vocês já não tão nem aí com aquelas vidas / vejam como é que o agrobusiness humaniza". A composição é uma colaboração com Carlos Rennó e uma das únicas faixas a não ser assinada exclusivamente pelo paraibano - a outra é Quero viver, parceria póstuma com Torquato Neto.
Já o racismo e a hipocrisia no Brasil são denunciados em Negão, na qual o ritmo embalado do reggae contrasta com o teor crítico das palavras do autor: "Negam que aqui tem preto, negão / Negam que aqui tem preconceito de cor". "Reggae virou um gênero meio de surfista, com essa coisa de namorinho. Mas a matriz traz questões negras, reivindicações", relembra ele.
As duas faixas integram o que o músico chama de lado B de Estado de poesia. Enquanto essa segunda metade do registro aborda o lado mais engajado de Chico César, a metade inicial é voltada para o seu interior. É nessa face mais introspectiva que se encontra a canção-título, originalmente feita sob encomenda para Bethânia. "Para viver em estado de poesia / Me entranharia nestes sertões de você / Paradeixar a vida que eu vivia / de cigania antes de te conhecer", canta o músico, que tem um cuidado especial com as palavras.
"É em torno dela que a coisa se mexe, que vem a melodia. É por sua causa que vêm a instrumentação e arranjos", afirma, completando: "Às vezes, fico procurando a sonoridade que a palavra pede. Às vezes, compondo, me faltam palavras, e aí preciso criar alguma, nem que seja para usar em uma só canção".
Com samba, forró, frevo e toada, o disco tem produção do próprio artista, em parceria com Michi Ruzitscha, e foi contemplado pelo edital Natura Musical. A distribuição física ficou por conta da Pommelo Distribuições, enquanto a digital é responsabilidade do Laboratório Fantasma - em um modelo de parcerias que o músico considera adequado ao mercado atual. Já o show, meio ano após o lançamento do disco, "está maduro", segundo o paraibano. "Poder mostrar músicas novas é uma conquista para mim", finaliza.
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