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Porto Alegre, sexta-feira, 02 de fevereiro de 2018.

Jornal do Comércio

Geral

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Ensino

Notícia da edição impressa de 30/01/2018. Alterada em 30/01 às 12h18min

Biblioteca escolar, morada de professores afastados

Apenas 1% das instituições estaduais de ensino contam com bibliotecários

Apenas 1% das instituições estaduais de ensino contam com bibliotecários


LUIZA PRADO/JC
Isabella Sander
As bibliotecas das escolas estaduais do Rio Grande do Sul se tornaram morada de professores afastados das salas de aula. A reportagem do Jornal do Comércio identificou, através do Portal da Transparência, que, das 2.545 instituições de ensino existentes na rede, somente 28 (em torno de 1%) têm bibliotecários formados como responsáveis - as outras todas são geridas pelo servidor que tiver disponibilidade, normalmente educadores com algum problema de saúde que os impede de lecionar.
Atualmente, cerca de 10% das bibliotecas de escolas estão fechadas - em torno de 250 - total ou parcialmente, ou por falta de funcionários, ou de espaço físico. A coordenadora do Sistema Estadual de Bibliotecas Escolares da Secretaria Estadual de Educação (Seduc), Maria do Carmo Mizetti, argumenta que há 100 vagas de bibliotecários ociosas, a serem preenchidas por concurso público. No entanto, não há previsão alguma de nomeações nessa área, uma vez que o último certame para bibliotecários foi no início dos anos 1990.
Presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia (CRB) até dezembro, Alexsander Borges Ribeiro se encheu de expectativas quando, no início do governo de José Ivo Sartori, a entidade foi chamada para apresentar suas demandas. "Dissemos que queríamos a reabertura da biblioteca pública e concurso para a categoria", relata. A biblioteca pública foi reaberta, mas o certame nunca veio. "Sabemos que o principal motivo é financeiro, mas, por outro lado, o Estado teria que manter um quadro mínimo de servidores em todos os setores, não só nos mais emergenciais", observa. Ribeiro reclama, ainda, que, após esse encontro no início da gestão, o governo nunca mais deu retorno a seus ofícios. Para o bibliotecário, o ideal seria um profissional formado em cada biblioteca escolar, mas, como a realidade financeira é difícil, sabe que é utopia. "Mas poderia haver um em cada Coordenadoria Regional de Educação, por exemplo, que prestasse atendimento às escolas e desse um treinamento qualificado aos funcionários das bibliotecas", sugere. O profissional poderia, também, fazer a catalogação das obras de cada instituição, havendo, assim, maior controle de quantos livros há, quais são e para quem estão sendo disponibilizados.
A falta de bibliotecários se reflete no baixo número de leitores no Brasil. É considerado leitor aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos, um livro nos últimos três meses. Estudo de 2015 do Instituto Pró-Livro indicou que 56% da população é leitora. Desses, 42% leem a Bíblia; 22%, outros livros religiosos; 22%, contos; e 22%, romances, entre outros. Na Região Sul, o percentual de leitores cai para 43%. A média no Brasil é de 4,96 livros lidos por ano, enquanto, no Sul, a média cai para 4,41.

Inadequação dos espaços baixa desempenho dos alunos, diz bibliotecário

O ex-presidente do CRB considera que o baixo desempenho das escolas gaúchas no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) se deve, em parte, à falta de bibliotecas adequadas. A nota do Estado, em 2015, para o Ensino Médio, por exemplo, foi de 3,6, abaixo da média nacional, de 3,7, e da meta, de 5,2. "Acreditamos que não são só os problemas mais evidentes, como a desvalorização do professor, mas o todo. Não temos bibliotecas adequadas, em condições que não sejam apenas mínimas, mas sim atrativas", aponta.
Na opinião de Ribeiro, frequentar uma biblioteca organizada ajuda a criança a desenvolver técnicas de filtragem e a torna mais crítica, viabilizando um melhor uso dos materiais que encontra na internet. Mas, para isso, o espaço precisa se tornar mais atrativo. "Atualmente, (o leitor) convive com goteira, mobiliário inadequado, servidor mal pago, já doente e sem condições de dar aula", critica. As mudanças envolvem o local ter acesso à internet, boa conservação do acervo, mesas e cadeiras confortáveis
Muitas vezes usada como local para onde são encaminhados os alunos que não se comportam em sala de aula, a biblioteca acaba sendo vista sob viés negativo. "Ela não pode se tornar um espaço de punição. Isso afasta, porque a criança é encaminhada para lá, encontra a biblioteca sucateada, com profissionais sem paciência, e o problema só se agrava."
O presidente da Associação Rio-grandense de Bibliotecários (ARB), Alexandre Demétrio, acredita que a falta de profissionais qualificados faz com que se perca a oportunidade de preparar alunos para a pesquisa. "Respeito aos direitos autorais, citação de autores, como fazer pesquisas, todas essas orientações o bibliotecário faz", salienta.
Para Demétrio, trata-se de um espaço de reflexão e troca com outras disciplinas. "Quando se coloca um professor afastado da sala de aula na biblioteca, se está apenas ocupando o lugar. A organização de um acervo é do escopo do bibliotecário e do técnico em biblioteconomia", defende. Com a regulamentação da profissão de técnico aprovada pelo Senado no dia 14 de dezembro, o cargo pode começar a constar em concursos.
Conforme o presidente da ARB, a leitura obrigatória de algumas obras em aulas gera, por um lado, bons leitores, mas, por outro, pessoas revoltadas com a literatura. "Quando temos acesso a um acervo mais diversificado, conseguimos que o aluno tenha um olhar diferente e se aproxime da leitura", explica. Se um estudante diz que não gosta de ler, por exemplo, o bibliotecário, em entrevista, pode descobrir por quais assuntos o jovem se interessa e encontrar, assim, um leitor em potencial.
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Em geral, bibliotecas não estão adequadas e, assim, deixam de ser atrativas. Os principais impeditivos são:

  • Problemas de infraestrutura, como goteiras
  • Falta de mobiliário ou mobiliário inadequado
  • Falta de computadores e de acesso à internet
  • Acervo malconservado e desorganizado

O que se perde com isso

  • A oportunidade de preparar o aluno para a pesquisa
  • A habilidade em desenvolver técnicas de filtragem
  • A criticidade
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Comentários
Leonardo Assis 02/02/2018 09h33min
Fica o registro de que o principal é o comprometimento da instituição (escola) em colocar a sala de leitura (biblioteca) como centro de sua política de ensino. Leonardo Assis, Bibliotecário, mestre pelo PPGCI-ECA-USP, Doutorando do PPGCI-ECA-USP
Leonardo Assis 02/02/2018 09h31min
Portanto, a questão de serem professores afastados pouco importa. Esses professores, que por vezes sofreram (ou não) problemas de saúde dos mais diversos, como, por exemplo, perda de voz, dificuldade em realizar movimentos com as mãos devido ao excesso de uso em lousas e cadernos, acidentes motores e de locomoção, entre outros, atuam na sala de leitura (biblioteca) por amor e reconhecimento da importância daquilo que fazem: formam pessoas. [Continua]
Leonardo Assis 02/02/2018 09h30min
O envolvimento da sala de leitura (ou biblioteca) com a escola deve ser uma política da instituição. Todos, do diretor ao aluno, devem entender que aquele espaço é um ambiente fundamental para a formação da criança. E, com isso, pensar em maneiras integradas da sala de leitura (ou biblioteca) fazer parte das atividades realizadas no currículo de formação do aluno. [Continua]
Leonardo Assis 02/02/2018 09h29min
Essa discussão é complexa e precisa ser analisada ouvindo os diferentes atores envolvidos, sendo eles: bibliotecários (como fez a matéria), professores, diretores das escolas, gestores públicos e, até mesmo, as crianças. De forma legal, os professores podem atuar em salas de leitura nas escolas. Não há impedimento para realizar tal tarefa. Além disso, existem professores que desempenham um excelente trabalho com as crianças. O problema não está em quem realiza, mas no como. [Continua]