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Porto Alegre, sábado, 03 de setembro de 2016. Atualizado às 13h48.

Jornal do Comércio

Colunas

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

cinema

Notícia da edição impressa de 02/09/2016. Alterada em 01/09 às 16h24min

A mecânica do momento atual

Júlio Conte escreveu e estreou, no último mês, novo texto - A mecânica do amor -, título ambíguo, porque se refere, ao mesmo tempo, ao estabelecimento comercial em que ocorre a ação dramática, uma oficina mecânica em que dois amigos, Jambolão e Caneta, trocam ideias enquanto trabalham, e ao enredo em si mesmo, que envolve uma série de reflexões sobre o amor e sua mecânica. A primeira coisa que chama a atenção, neste novo trabalho de Conte, é a flexibilidade, a leveza e o ritmo acelerado do texto. Mais que isso, a naturalidade do diálogo. Em teatro, isso é mais que ponto de partida, isso é chão sobre o qual se apoiará tudo o mais.
Conte é, também, o diretor do espetáculo, e não sei, sinceramente, se isso sempre é o melhor para o seu próprio texto, simplesmente porque o diretor pode não ler tudo o que o dramaturgo escreveu, ainda que se possa imaginar que o dramaturgo escreva com um olhar de diretor. Neste caso, acho que um ajudou o outro, sobretudo quando o autor resolve, de certo modo, enfiar uma história dentro da outra. Explico: os dois mecânicos vivem suas vidas pacatas e anônimas, cada qual com sua filosofia e experiência de vida. Trocam ideias, ganharam e perderam lances variados, mas, em geral, se sentem satisfeitos com a sorte. É então que, inopinadamente, desaba um personagem aparentemente rico, bem situado na vida, e que oferece a um dos mecânicos uma bolada em dinheiro desde que... aqui, Conte aproveita os episódios que vêm marcando a vida política brasileira mais recente, com delação premiada e tudo o mais, para dar uma sacudida no enredo. A mim, me pareceu tudo aquilo um pouco estapafúrdio demais, algo tipo um "deus ex machina", que não me chegou a convencer. Felizmente, o enredo primeiro é retomado, ao final do espetáculo, com um bom desenlace, o que reequilibra o texto.
Na encenação, é surpreendente, positivamente, o cuidado da produção em recriar o espaço da oficina, inclusive quanto ao automóvel em que os dois homens insistem trabalhar para recuperar o velho modelo. Assinado pelo diretor e ambos os atores, o cenário prende de imediato a atenção e a simpatia do espectador e garante a adesão sem restrições do público à performance. Por outro lado, os figurinos de Thaís Partichelli foram cuidadosamente escolhidos para completar esta veracidade alcançada desde logo, de sorte que os atores Lucas Sampaio e Fabrizio Gorziza se acham absolutamente em seu meio, como se, de fato, fossem dois mecânicos desde pequenininhos: são dois tipos engraçados, cuidam muito bem de pausas e acentuações de suas falas (certamente, também mérito do diretor), de modo que a plateia acompanha com absoluto interesse o diálogo que apresenta as personalidades das duas figuras e suas características. Detalhe importante para tudo isso, as tiradas engraçadas, as situações cotidianas e prosaicas, as observações por vezes inesperadas que rodeiam os dois personagens. Sinteticamente, a impressão é de que eles "são a gente".
Os mesmos dois atores transformam-se nos dois outros personagens do enredo, o lobista Anselmo e Ricky, que conheceu anos atrás Jambolão e que pretende se valer dele para dar sumiço em rastros de negociatas perigosas de que pretende se livrar. A transformação é boa, sobretudo porque o ritmo do espetáculo muda e as características dos dois novos personagens também: nada mais da leveza de quem tem a vida difícil, mas é capaz de driblar os desafios. Aqui, um é homem sem escrúpulos e o outro é covarde, nada mais que isso. Na medida em que o drama avança, a tensão aumenta e esperamos o pior. A solução encontrada pelo dramaturgo para resolver a situação é boa e sustenta o enredo inicial. Este é um bom exemplo de uma dramaturgia eminentemente popular, com feições brasileiras e, ao mesmo tempo, com perspectiva universal.
É importante, sim, que a dramaturgia nacional se volte para este momento, tentando entendê-lo enquanto parte da construção de nossa identidade. Daqui a um século, quem sabe, um documento de arte, como esta peça de teatro, talvez diga mais a respeito desses episódios do que um longo discurso ou um complexo ensaio.
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Comentários
Fabrizio 02/09/2016 20h23min
Valeu pelas palavras Hohlfeldt! Só gostaria de avisar que o cenário foi executado pelo Kiko Angelim. Abraço.