Wall e Charão, da Wall Mends: casal trocou galeria de rua pelo Praia de Belas Wall e Charão, da Wall Mends: casal trocou galeria de rua pelo Praia de Belas Foto: MARCO QUINTANA/JC

Empreendedores enumeram atrativos para investir em shopping centers

Mais da metade dos consumidores porto-alegrenses prefere comprar nos grandes centros comerciais em vez de lojas de rua ou de internet

Os sábados eram impraticáveis para o casal Wallery Mendonça, a Wall Mends, de 29 anos, e Guilherme Charão, de 32. Nos fins de semana, poucas pessoas visitavam a galeria Florêncio Ygartua, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre, onde eles recém haviam transformado sua e-commerce de moda feminina, a Wall Mends, em uma loja física. Para piorar, a primavera estava tão chuvosa que a baixa circulação se repetia até nos dias úteis. 
O sol reapareceu num sábado de outubro. "O dia é ruim para vendas, mas quem sabe com esse sol", era a esperança. Não deu. Tudo conspirava para (mais) um expediente fracassado, sem sequer um cliente. Até entrar no local uma mulher "agitada", que não comprou nada, mas, após muita observação, fez uma oferta que mudou a vida do casal - e da empresa.
A mulher em questão era Carla Zen, gerente de mix de varejo do Grupo Iguatemi. Ela é responsável por auxiliar os novos lojistas nos shoppings da rede. Carla gostou tanto do astral da Wall Mends, marca que se propõe a agradar mulheres com looks românticos, de aspecto retrô, mas contemporâneo, que convidou o casal para seguir com a loja em um dos malls do grupo. A proposta martelou na cabeça dos dois - afinal, os custos mensais (pouco mais de R$ 3 mil) da galeria, onde estavam há sete meses, não estavam compensando.
Decidiram arriscar. Em novembro, a Wall Mends foi aprovada pelo conselho de varejo do grupo. O novo ponto, no segundo piso do shopping Praia de Belas, inaugurou no último dia 4 de dezembro. O investimento total foi de R$ 25 mil, entre reformas e burocracias. Não houve a aquisição da "luva" (direito de explorar a área) por se tratar de uma loja de categoria "temporária". Se houvesse, um investimento semelhante poderia ultrapassar os R$ 300 mil, segundo especialistas. O contrato inicial é de dois anos. Embora os custos fixos tenham dobrado, Wall não se arrepende da mudança. "Tudo compensou com o faturamento, que quadruplicou de tamanho."
Existem exceções, mas a abertura de um ponto comercial num shopping center geralmente vale a pena. Isso porque, além do grande fluxo de pessoas, os estabelecimentos oferecem comodidades que os pontos de rua, muitas vezes, não conseguem: "Horário estendido, limpeza, segurança, estacionamento, boa climatização", enumera Adriana Colloca, superintendente da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce).
Os dados do setor também alentam - especialmente, em um cenário de recessão econômica. Em 2015, quando as vendas no varejo brasileiro caíram 4,3%, em relação ao ano anterior, as quase 100 mil lojas espalhadas pelos 538 shoppings do País cresceram 6,5% - faturamento de R$ 151,5 bilhões. "Isso demonstra a força do nosso mercado", afirma Adriana.
Na Capital, uma série de pesquisas encomendadas pela CDL Porto Alegre e o Sindilojas concluiu que 61,2% dos consumidores preferem comprar em lojas localizadas em shoppings centers - pelas lojas de rua optam 29,4% do público e pela internet, 6,2%.
Foi atrás dessa maioria que as sócias Isabel Dalmás e Angela Chapon, da Feito de Sorvete, chegaram ao Iguatemi. Depois de consolidarem a marca, criada em 2013, com uma loja na Zona Norte da Capital, a expansão começou pelo shopping - e de carrinho, solução considerada mais econômica e menos arriscada que uma loja. "O que nos motivou foi a concentração de pessoas 'faça chuva ou faça sol', a classe do público e a proximidade com a nossa fábrica", explica Isabel, sobre o ponto inaugurado em agosto passado.
De lá para cá, a unidade vendeu mais de 100 mil bombons recheados de sorvete e já representa 55% do faturamento da empresa. "O shopping tem pessoas o dia inteiro. Uma loja de bairro não te dá esse volume", reforça Isabel. A estratégia deu tão certo que as sócias pretendem continuar a expansão para outros três shoppings de Porto Alegre - dessa vez, em forma de franquia.
Nos grandes centros comerciais, há espaço para negócios de diversos portes e setores. Contudo, encontrar o estabelecimento ideal não é tarefa das mais simples. O desafio requer estudo, especialmente financeiro, geográfico, de consumidor e de concorrentes.

Estratégia desde o princípio

445310 Só indoor: Ângelo Meneghetti dirige a Petiskeira, que tem oito das nove unidades em centros comerciais Foto: JONATHAN HECKLER/JC
Da experiência de um restaurante na Estação Rodoviária de Porto Alegre, a família Meneghetti descobriu uma oportunidade de negócio: a criação da Petiskeira. O local eleito para a aposta foi o shopping Iguatemi, em 1984, ano de lançamento do centro comercial. "Quando inaugurou, só tinha duas opções na praça de alimentação: restaurante caro ou fast food", lembra Ângelo Meneghetti, sócio-diretor da empresa. Enxergando uma janela para ingressar no nicho das refeições de qualidade, com preço acessível e servidas de forma rápida, a família iniciou a operação da marca, que hoje, após 30 anos de mercado, possui oito de suas nove unidades dentro de shoppings centers.
De acordo com Meneghetti, o posicionamento da Petiskeira é estratégico. As lojas, sim, implicam custos maiores de operação, mas o dirigente faz coro com os demais empreendedores que optam pelo espaço: os atrativos, como estacionamento, climatização e fluxo de pessoas, são vantajosos. "A gente ganha na escala", garante ele, que já prepara um novo restaurante para abril de 2017, no novo ParkShopping Canoas.
Outra rede gaúcha - da área de produtos de estética e beleza - que segue a mesma linha estratégica é a Empório Body Store, franquia encontrada em quase todo País. Lançada em 1997, também no Iguatemi, a ideia é fixar lojas em locais de fácil visualização. Novas unidades só são abertas em zonas de alto fluxo, próximas a entradas, escadas, cinemas ou praças de alimentação.

Mais que um centro decompras

445318 Alison Salles: para inaugurar salão no BarraShoppingSul, investiu cerca de R$ 400 mil Foto: MARCELO G. RIBEIRO/JC
Os shoppings estão diversificando a forma de interagir com o público. Tanto que já não é raro encontrar laboratórios de análises clínicas, academias de ginástica e faculdades dentro dos malls. Segundo Adriana Colloca, da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), o aumento de opções tem feito os empreendimentos se desprenderem do perfil de "centro de compras". "Parte da comodidade oferecida é resolver a vida das pessoas", diz ela.
O cabeleireiro Alison Salles, 38 anos, concorda. "O shopping tem de ser um facilitador, que otimize o tempo das pessoas, possibilitando fazer compras, tomar um café e cortar o cabelo", exemplifica.
Ele, que começou sua trajetória empreendedora com unidades de rua (nos bairros Tristeza, Centro e Higienópolis), percebeu que era hora de entrar no ambiente protegido do calor ou do frio. Para isso, escolheu o BarraShoppingSul como casa para a quarta unidade de seu salão homônimo.
A loja fica onde funcionava o Sevilha Salón, ao lado do Hipermercado BIG. O investimento total, entre a luva e a reforma do espaço de 70 m² inaugurado em agosto passado, foi de cerca de R$ 400 mil. Com seis meses de operação, Salles está contente com o retorno. "Já somos autossustentáveis", garante ele sobre a loja que recebe cerca de 1.000 clientes por mês - homens e mulheres que dispendem de R$ 65,00 a R$ 100,00 para cortar o cabelo.
Entre os desafios, Salles cita a negociação de três custos fixos: o valor do aluguel, que varia de acordo com a época do ano, o tamanho e formato da loja; a taxa de condomínio, que cobre despesas como água, energia e limpeza; e a taxa de fundo de promoção, que é utilizada pelo shopping em campanhas de marketing e publicidade. "Levei nove meses para entrar em consenso com a administração", revela. A experiência no Barra prepara Salles para a unidade de quase 200 m² que abrirá no Iguatemi em 14 de abril, no lançamento da expansão do shopping. O investimento foi de quase R$ 1,5 milhão.
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